BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Gladys Mae West, uma das pesquisadoras responsáveis pelo desenvolvimento do GPS (Global Positioning System), morreu aos 95 anos no último dia 17, segundo o The National Center of Women's Innovations, entidade responsável por uma exposição itinerante nos EUA sobre matemática.
Curiosamente, Gladys declarou, há alguns anos, que preferia usar mapas.
Nascida em 1930, no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, cresceu em uma área rural. Ela ajudava nas colheitas da fazenda de sua família. Segundo a Encyclopedia Britannica, na comunidade de Gladys, a única opção de um jovem negra era, basicamente, continuar trabalhando no campo ou em uma indústria de processamento de tabaco na região --trabalho que a mãe dela exercia.
Porém, o desempenho escolar de Gladys lhe rendeu uma bolsa de estudos integral na então Virginia State College (que atualmente se chama Universidade Estadual da Virgínia).
Vale mencionar que o crescimento e a formação universitária de Gladys ocorreram durante a segregação racial nos EUA. Por exemplo, antes de conseguir seu mestrado em matemática, em 1955, a pesquisadora ensinava a mesma disciplina em escolas segregadas do estado da Virgínia.
Apesar disso, em 1956, novamente segundo a Encyclopedia Britannica, Gladys conseguiu um trabalho como matemática em um laboratório de armas do U.S. Naval Proving Ground. Ela era 1 dos 4 funcionários negros no quadro do local, que fazia parte da Marinha americana. E foi no trabalho que ela conheceu Ira West, outro pesquisador negro da entidade, com quem se casou e teve três filhos.
O trabalho da pesquisadora que viria a ser parte do processo para criação do GPS teve início em 1978, quando ela se tornou gerente de projeto do Seasat, o primeiro programa de sensoriamento remoto -com uso de satélite- do oceano, o que possibilitava coleta de dados oceanográficos.
Seguiu-se a esse projeto o Geosat, um programa a partir do qual a equipe de Gladys foi capaz de calcular órbitas de satélites e o formato exato da Terra. E, como você deve estar imaginando, isso tornou possível o GPS tal qual o conhecemos atualmente.
Em 2018, Gladys entrou para o Hall da fama da Força Aérea dos EUA. No mesmo ano, a Assembleia Geral da Virgínia (o corpo legislativo do estado), reconheceu formalmente a contribuição da matemática na criação do GPS.
Ironicamente, Gladys chegou a declarar que preferia usar mapas de papel.
"Eu diria que minimamente [uso GPS]", disse Gladys, ao ser questionada sobre o uso da tecnologia que ajudou a criar, em uma entrevista em 2020, à VPM, organização de rádio parte da entidades públicas norte-americanas PBS (Public Broadcasting Service) e NPR (National Public Radio). "Prefiro mapas", afirmou, rindo.
Gladys é uma das mulheres com participação essencial em grandes avanços da humanidade no século passado que acabaram com suas histórias invisibilizadas.
Reportagem da BBC News de 2018 aponta que a história de sua participação na invenção do GPS veio somente quando uma colega de irmandade universitária -Alpha Kappa Alpha- teve contato com uma pequena biografia que Gladys tinha enviado para um evento de ex-alunos.
Na mesma reportagem, Gladys disse que acreditava ter se tornado um exemplo para outras mulheres. "Eu acho que ajudei, sim."
"Progredimos muito desde que eu comecei, porque agora, pelo menos, você pode falar sobre as coisas e ser um pouco mais aberta. Antes, a gente meio que cochichava e trocava olhares, ou algo assim; mas agora o mundo está se abrindo um pouco e tornando as coisas mais fáceis para as mulheres", afirmou Gladys à BBC News. "Mas elas ainda têm que lutar."