SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A série "Centro em Transição" chega ao final neste sábado (24), véspera do aniversário de 472 anos de São Paulo, com a publicação de um minidocumentário que fecha o ciclo de reportagens sobre a requalificação do coração da capital paulista. O projeto chamou especialistas em urbanismo para desenvolverem propostas com intervenções práticas que acelerem o movimento de reocupação de áreas degradadas nos distritos centrais da cidade.
Convidados a avaliar o conjunto de cinco propostas apresentadas na série, os autores apontaram para uma ideia convergente: a recuperação da região central depende fundamentalmente da valorização do espaço público e da reconexão das pessoas com a cidade.
Ruas com mais pedestres seriam o motor dessa renovação urbana. Para isso, precisam ser mais caminháveis, verdes e seguras, priorizando a escala humana no planejamento para reverter processos de subutilização.
A secretária municipal de Urbanismo e Licenciamento, Elisabete França, cuja proposta apresentada é para a criação de corredores de pedestres visando aumentar a circulação de público no circuito de museus e equipamentos culturais do Bom Retiro, destaca que todas a propostas de recuperação do centro passam pela valorização do espaço público.
"Há convergência na ideia de que ruas mais seguras, caminháveis, verdes e ativas são o principal motor de transformação urbana. Alguns projetos apostam em grandes intervenções estruturais, outros em ações mais graduais e de baixo impacto, mas todos indicam um caminho comum de um centro cada vez mais humano, diverso e integrado, tendo o cidadão como protagonista", avalia França.
Silvio Oksman, sócio do Metrópole Arquitetos, explicou como uma mudança na lógica de concessões de espaços públicos e incentivos à reocupação de imóveis privados poderia transformar o vale do Anhangabaú em um motor econômico e habitacional.
Oksman diz que "a proposta de reunir diferentes vozes --do mercado, da academia e da gestão pública-- é fundamental para debater as múltiplas questões que envolvem a área central, mas há um ponto que une todas elas: a aproximação de uma escala humana no uso dos espaços".
"Olhar para o Anhangabaú, por exemplo, exige transformá-lo em um lugar pulsante, ocupado pela diversidade das camadas sociais da cidade. Isso implica pensar o planejamento urbano sob a ótica da habitação e da circulação, onde o ato de andar e vivenciar o espaço público define a métrica do projeto", diz Oksman.
"Em última análise, precisamos aprender a incorporar melhor essa escala de uso cotidiano no momento de planejar o território, garantindo que a cidade seja feita, prioritariamente, para as pessoas", completa o arquiteto.
Danielle Santana, presidente do IAB-SP (Instituto dos Arquitetos do Brasil) em São Paulo, apontou estratégias para aproveitar o desenho urbano e elementos históricos, transformando as ruas centrais em locais de permanência e convivência.
Para ela, "embora as propostas tenham origens distintas, todas também convergem para a valorização das pessoas, que são as verdadeiras engrenagens do centro, tanto no aspecto simbólico quanto no econômico. Nesse contexto, a questão da habitação extrapola o limite do espaço público e coroa essas propostas de forma estratégica, pois é fundamental valorizar e garantir a permanência de quem já habita a região".
Santana afirma, porém, que a cidade carece de uma gestão integrada que conecte as ações em curso às futuras. "É nítida a ausência de uma figura de gestão local capaz de coordenar as diversas intervenções públicas e privadas voltadas ao centro", afirma Santana.
Os professores Antônio Aparecido Fabiano Júnior e Lizete Maria Rubano, do curso de arquitetura e urbanismo do Mackenzie, propuseram a conversão de casarões históricos dos Campos Elíseos em modalidades de habitação e espaços para geração de trabalho e renda para a população mais pobre. O projeto recupera uma proposta que tem como base os debates da iniciativa "Campos Elíseos Vivo" do Fórum Aberto Mundaréu da Luz.
Antônio Aparecido diz que "o ponto de conexão entre os projetos é o entendimento de que a melhora na qualidade de vida ocorre nos espaços coletivizados; contudo, a divergência reside em para quem esses espaços são projetados".
Para o professor do Mackenzie, a essência do espaço público por excelência exige que ele seja pensado para todas as camadas da população, sem privilegiar grupos específicos ou promover a segregação.
"Planejar a cidade deve ser um exercício de construir alternativas e oportunidades inclusivas, sem a lógica de 'ganhos' que pressuponha a exclusão dos mais pobres. É na arena do debate público que consolidamos o avanço em direção a uma cidade verdadeiramente para todos", argumenta.
José Police Neto, professor do Insper Cidades, propôs a conversão do parque Dom Pedro 2º em uma ampla área ajardinada para conectar os distritos Sé e Brás, visando impulsionar o desenvolvimento habitacional por meio do lazer familiar.
Police Neto avalia que "a recuperação do centro de São Paulo mostra vitalidade, energia e oportunidades que não devem ser abandonados".
"O que é absolutamente fundamental é criarmos soluções criativas de grande impacto e de baixo custo, porque o investimento que já foi realizado no centro é gigantesco. Portanto, o que o centro mais precisa é da nossa inteligência, da nossa capacidade intelectual e da nossa criatividade para ser desejado de novo. O centro precisa de mais vidas para ter vida", diz.