BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O MPF (Ministério Público Federal) no Amazonas instaurou um inquérito civil público para investigar o tiroteio protagonizado por militares do Exército na fronteira com a Colômbia -um episódio que envolveu 52 balas de fuzil e 2 de revólver, segundo relatos de testemunhas- e a morte de um indígena hupda, de recente contato. Outro indígena da mesma etnia foi ferido a bala.
O tiroteio ocorreu na noite do último dia 8, ao longo do rio Papuri, onde está a Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas. A cidade mais próxima é São Gabriel da Cachoeira (AM), numa região conhecida como Cabeça do Cachorro.
No dia seguinte, um hupda foi encontrado ferido a bala, numa das margens do rio. E, no dia 10, o corpo de outro hupda -Sandro Barreto Andrade, 19- foi localizado por integrantes de comunidades vizinhas.
Em reuniões feitas entre testemunhas, lideranças e indígenas a par do tiroteio, os presentes relacionaram as rajadas de tiro dadas por militares do 1º PEF (Pelotão Especial de Fronteira) à morte e ao ferimento dos dois indígenas hupdas, que pescavam na área.
A portaria de instauração do inquérito civil público para investigar o que ocorreu -essa era uma demanda de organizações indígenas da região- é de segunda-feira (26). O ato foi publicado no Diário Oficial do MPF nesta quarta (28).
Segundo o Exército, houve um suposto confronto entre militares e narcotraficantes que estariam em quatro embarcações que navegavam no sentido Colômbia - Brasil.
Os projéteis de fuzil e revólver foram recolhidos e entregues para os primeiros responsáveis pela apuração do que efetivamente ocorreu naquela noite, segundo relatos feitos em reuniões na região.
Os hupdas (ou hupd'ähs) são um povo de recente contato, com algum tipo de relação com não indígenas estabelecido apenas a partir da segunda metade do século 20, bem posterior à experiência de outros povos da região. Vivem em áreas mais remotas, mais próximas da fronteira -há hupdas também no lado colombiano.
Existe um histórico de marginalização, e comunidades desse povo tentam ganhar mais protagonismo no próprio movimento indígena.
Segundo o relato em reuniões feitas após o tiroteio, quatro hupdas pescavam peixes pequenos, em duas duplas, uma na foz do rio Papuri e outra em um trecho mais acima.
Os indígenas que estavam na foz foram atingidos por diversos disparos que teriam vindo do lado brasileiro, conforme os relatos feitos. Os outros dois conseguiram correr, segundo esses mesmos relatos.
O Exército não admite ter participação na morte e no ferimento aos hupdas, diz ser incorreto afirmar que os indígenas foram baleados por militares e afirma que os disparos dados foram uma reação a um ataque sofrido por homens que estavam em embarcações.
A reação foi "legítima defesa a injusta agressão", disse o Comando Militar da Amazônia, em nota.
A Funai e o Ministério da Saúde, pasta à qual está ligado o departamento de saúde indígena que prestou o atendimento ao indígena ferido, também não informaram se existe relação entre as vítimas e o tiroteio.
O ministério disse que, após o ocorrido, o DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) Alto Rio Negro fez "todas as comunicações" aos órgãos competentes.
O indígena ferido, após atendimento e estabilização, foi transferido para Manaus -a distância é de 1.100 km em linha reta. O paciente ficou estável e em boas condições clínicas, segundo informação da pasta após o ocorrido.
Conforme relatos de uma equipe que visitou o local do tiroteio, havia marcas de balas em árvores e pedras.
Indígenas lamentaram o que teria sido uma demora do Exército em remover o corpo encontrado e o tratamento dispensado para a remessa do corpo até a comunidade Vila Fátima.
Em uma reunião feita com lideranças e indígenas, integrantes do Exército disseram ter recebido denúncias de comunidades do rio Papuri sobre o tráfego de quatro embarcações que transportavam drogas. Uma operação foi feita no dia seguinte, com troca de tiros com os traficantes, segundo o relato dos militares.
Isso teria se dado por volta de 22h30 do dia 8, conforme o Exército, num "patrulhamento de rotina". "A embarcação agressora conseguiu se evadir do local após o confronto. Após isso, os militares retornaram para as instalações do 1º PEF", cita a nota do Comando Militar da Amazônia.