RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Depois que o último carro alegórico cruza a linha final da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, um problema pouco visível se impõe à cidade: o destino de milhares de fantasias de Carnaval usadas por poucas horas pelas escolas de samba.
Foi nesse intervalo, entre o fim do desfile e a desmontagem da festa, que nasceu o Sustenta Carnaval há seis anos. O projeto atua na área de dispersão da Sapucaí, logo após as apresentações das escolas da Série Ouro e do Grupo Especial, recolhendo fantasias que não retornam aos barracões.
O quilo no varejo vale R$ 50; para o atacado, cai para R$ 30, com compra mínima de 50 quilos.
Edenise Antas, 60, recorreu ao projeto em busca de alternativas mais sustentáveis para o Carnaval. Diretora do Centro Cultural Feso Pro Arte, em Teresópolis (RJ), ela adquiriu cerca de 1,4 tonelada de fantasias reaproveitadas para a montagem dos figurinos do tradicional bloco Bebe Rindo, patrocinado pela Fundação Educacional Serra dos Órgãos, que completa 60 anos neste ano.
Segundo Edenise, a parceria com o Sustenta Carnaval surgiu da preocupação com os custos e, sobretudo, com o destino dos materiais após a festa. "O projeto trouxe um processo educativo e a compreensão de que precisamos ser protagonistas da educação ambiental, ressignificando o que é lixo e entendendo que tudo tem valor", afirma.
Embora as escolas reaproveitem internamente parte dos figurinos, o descarte se concentra no momento da dispersão. A cada 90 minutos, mais de 3.000 pessoas deixam a área do desfile, e parte desse material segue diretamente para caminhões compactadores e aterros sanitários.
São, em geral, peças de alas comerciais ou de agremiações sem estrutura para transportar todo o acervo, compostas por tecidos sintéticos, plumas artificiais, bordados, pedrarias, estruturas metálicas leves e adereços.
"Quando voltei a trabalhar diretamente no Carnaval do Rio em 2020, vi de perto o volume de fantasias descartadas logo após os desfiles, esse contraste ficou ainda mais evidente. Percebi que um material com meses de trabalho coletivo, saberes artesanais e investimento público tinha uma vida útil de apenas algumas horas", afirma Mariana Pinho, idealizadora do projeto.
A iniciativa começou a se estruturar institucionalmente a partir de 2022 e hoje opera por meio de acordos com a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), Rio Carnaval e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima.
Integrado à operação oficial de limpeza do Carnaval, o projeto passou a responder pela destinação dos resíduos têxteis da dispersão, contribuindo para que o evento obtivesse a certificação internacional voltada a práticas sustentáveis em grandes eventos.
Em cinco anos de atuação, o Sustenta Carnaval evitou a destinação de 66 toneladas de resíduos têxteis para os aterros sanitários. Assim, a iniciativa mantém um acervo que circula ao longo de todo o ano, rompendo com a lógica de uso único associada às datas festivas.
Depois da coleta, as fantasias passam por triagem, restauração e reconfiguração. Parte do material é destinada à venda e ao aluguel em um galpão que fica na rua Pedro Ernesto, bairro da Gamboa. Outra segue para doações a projetos sociais, escolas, teatros, produções de cinema e televisão.
A proposta é tratar a fantasia não como resíduo, mas como matéria-prima capaz de atravessar diferentes setores, do entretenimento à educação.
Foi por meio do projeto que a carioca Elza Ribeiro encontrou uma alternativa para economizar na compra de fantasias para o bloco Tecnomacumba, da cantora Rita Benneditto. A banda existe há 22 anos e desde 2023 passou a ser um bloco de carnaval. Desde então, ela e os organizadores adquirem insumos para compor todo o figurino do festejo.
"Tem uma grande diferença, pois o preço é acessível e estamos usando materiais que iriam para os aterros sanitários", afirma. Ela conta ainda que o material usado pelo bloco, depois do desfile, é devolvido ao projeto Sustenta Carnaval para que outros coletivos possam ter acesso.
Um dos principais parceiros do projeto é o Instituto Mulheres do Sul Global, em Niterói. Criada para oferecer formação e geração de renda a mulheres em situação de refúgio e migração no Rio de Janeiro, a organização atua como fábrica de costura especializada em gestão de resíduos têxteis.
A parceria com o Sustenta Carnaval transformou fantasias descartadas em bolsas, acessórios e produtos corporativos: "A gente dá uma segunda chance para esses materiais das fantasias", afirma Emanuela Pinheiro, fundadora do Instituto Mulheres do Sul Global.
Esses produtos já integraram kits institucionais de encontros do G20 e foram expostos na Casa Brasil durante as Olimpíadas de Paris, em 2024.