SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A morte de um homem durante uma abordagem de policiais militares na noite de terça-feira (17) pode ter relação com a queima de dois ônibus na noite de quarta-feira (18) na avenida Yervant Kissajikian, no bairro Americanópolis, zona sul de São Paulo.
Conforme a apuração preliminar da Polícia Civil, que consta em boletim de ocorrência, PMs da Força Tática do 22° Batalhão de Polícia Militar passavam pela rua Carlos Facchina, quando viram a passagem de um carro Chevrolet Tracker. O motorista do veículo subiu os vidros de forma repentina, o que chamou a atenção dos policiais. O condutor parou mais adiante, desceu e correu a pé até se esconder em um córrego.
Os policiais perceberam a movimentação e foram atrás do homem. Localizado, ele teria sacado uma arma, momento em que um policial atirou oito vezes, de acordo com o registro policial. O suspeito, identificado como Weslley Gabriel dos Santos Batista, 23, foi baleado diversas vezes. Ele foi encaminhado para o Hospital Municipal Doutor Arthur Ribeiro de Saboya, no Jabaquara, zona sul, onde morreu.
Os policiais militares afirmaram ter encontrado um revólver calibre 22 em posse de Batista.
Conforme o boletim de ocorrência, Batista foi investigado por receptação, estelionato e associação criminosa. Ele tinha dois mandados de prisão em aberto, embora não tivesse passagem pelo sistema prisional.
Os policiais militares usavam câmeras corporais. O caso é investigado pelo DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) e pela Polícia Militar.
Um dia após a morte, ao menos dois ônibus foram queimados no bairro de Americanópolis, a mesma região da ação da PM.
Um deles foi incendiado no cruzamento da avenida Yervant Kissajikian com a rua Brasil, outro na mesma avenida, mas na altura da rua Desembargador Olavo Ferreira Prado. Um terceiro coletivo foi depredado com o arremesso de pedras no cruzamento das ruas Delfino Facchina e Giacomo Lauri-Volpi. Ao menos dois outros ônibus também teriam sido alvo de vandalismo.
Conforme a Polícia Militar, dois homens foram detidos durante patrulhamento na área. Com eles teriam sido encontrados galões de gasolina e um isqueiro.
OUTRO VEÍCULO QUEIMADO NA ZONA SUL
Na noite de terça-feira (17), um ônibus da linha 7016/10 Jardim Ângela?Terminal Santo Amaro foi alvo de um ataque criminoso na avenida Guarapiranga, também na zona sul. O veículo, da empresa Metrópole, foi incendiado por um grupo de pessoas por volta das 23h30.
De acordo com informações da SSP (Secretaria da Segurança Pública) e da SPTrans, o motorista relatou que o veículo foi interceptado por um grupo de homens que o obrigaram a desembarcar do coletivo. Na sequência, os suspeitos atearam fogo ao ônibus
O veículo desceu cerca de cem metros e atingiu um salão de beleza e um quadro de luz. Em razão disso, diversos comércios da região ficaram sem fornecimento de energia.
Como mostrou a Folha, policiais civis e militares de São Paulo deixaram um total de 834 mortos ao longo de 2025, mostram dados publicados pelo governo estadual em janeiro. Trata-se do terceiro aumento consecutivo da letalidade policial, uma tendência que se inverteu a partir do primeiro ano de mandato de Tarcísio de Freitas (Republicanos) como governador.
A quantidade de mortes no último trimestre do ano passado foi a maior registrada em 25 anos. Policiais militares em serviço mataram 242 pessoas de outubro a dezembro, algo inédito para qualquer trimestre desde 1996.
Com isso, o estado chega ao maior índice de mortes provocadas pela polícia desde 2019. Naquele ano, o primeiro da gestão João Doria (ex-PSDB) no Palácio dos Bandeirantes, policiais provocaram 867 mortes. Os números consideram casos em que os agentes de segurança estavam tanto em serviço como de folga.
Na oportunidade, a SSP afirmou, em nota, que todas as ocorrências com mortes decorrentes de intervenção policial "são rigorosamente investigadas pelas Polícias Civil e Militar, com acompanhamento das respectivas corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário". Informou, ainda que "desde 2023, mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações por desvios de conduta, evidenciando o fortalecimento dos mecanismos de controle, fiscalização e responsabilização".