O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu que a regulação para o uso da Inteligência Artificial (IA) seja feita por uma instituição multilateral com o porte das Nações Unidas, de forma a beneficiar a sociedade como um todo, em vez de um ou dois donos.
A declaração foi feita nesta sexta-feira (20) durante entrevista ao programa India Today. O presidente brasileiro está na Índia, em viagem oficial.
Durante a entrevista, ele voltou a defender que as relações comerciais entre os países, em especial os que formam o Brics, possam ser feitas com moedas locais em vez do dólar estadunidense.
IA
Na viagem que faz à Índia, Lula tem alertado sobre a necessidade de se estabelecer uma regulação para a Inteligência Artificial que garanta o bom uso dessa ferramenta:
Precisamos de uma regulação rígida, realizada por uma instituição multilateral com o porte das Nações Unidas. Essa regulação deve proteger especialmente crianças, adolescentes e mulheres, pois não podemos permitir que a IA seja usada para causar danos e violência.
Segundo ele, os riscos de a IA ser usada de maneira negativa são grandes e podem causar danos e prejuízos à vida íntima das pessoas, além de provocar violência.
Há dois ou três proprietários de grandes plataformas que não desejam qualquer tipo de regulação, mas se não regularmos e perdermos o controle, acredito que isso não será bom para a humanidade, disse.
Pode até ser lucrativo para uma ou outra pessoa, mas, para a humanidade, não será positivo. Nós, governantes, precisamos ter clareza sobre a necessidade de proteger a sociedade diante dessa coisa extraordinária que é a inteligência artificial, acrescentou.
Segundo Lula, a inteligência artificial é algo cada vez mais fundamental para a humanidade, mas apenas se estiver a serviço da sociedade civil.
Ela pode elevar os padrões de vida das pessoas até mesmo em áreas como a saúde e a educação. A IA deve servir ao crescimento dos países, à melhoria dos serviços públicos e privados e, acima de tudo, à melhoria das condições de trabalho de toda a humanidade. Quem precisa assumir o controle sobre a IA é a sociedade, completou.
BRICS
Perguntado sobre as expectativas que tem para o futuro do Brics, Lula disse que o bloco é uma das coisas mais importantes criadas nas últimas três décadas.
Ele lembrou que outros grupos já foram criados para defenderem interesses específicos em comum. O G7 atua na defesa dos países mais ricos e suas políticas. O G20 foi criado após a crise financeira global de 2008. E o BRICS representa o sul global.
Segundo o presidente, isso é algo novo, especialmente considerando que o sul global inclui países como Índia e China, que representam metade da população mundial: Incluindo a Indonésia, ultrapassamos a metade da humanidade.
Nesse sentido, ele destacou a nova abordagem institucional promovida pelo bloco.
Diferentemente de instituições internacionais, como o FMI ou o Banco Mundial, não precisamos continuar copiando modelos do século XX. Podemos inovar conforme as necessidades do século XXI e os avanços da sociedade civil. O Brics é uma esperança. A expectativa é que ele se fortaleça e tome boas decisões, argumentou.
Criado em 2009, o Brics é formado por Brasil, Rússia, Índia, China (que são os países fundadores), pela África do Sul (que entrou em 2011), e pela Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã (admitidos em 2024).
Desdolarização
Sobre a tentativa do bloco de reduzir a dependência do dólar norte-americano em suas relações comerciais, Lula defendeu respeito às decisões dos países sobre a forma como comercializarão seus produtos.
Por isso defendo que não é necessário que um acordo comercial entre Brasil e Índia, por exemplo, seja feito em dólares. Acredito que podemos usar nossas próprias moedas. É difícil, mas podemos tentar. Ninguém precisa depender exclusivamente do dólar, disse.
Lula, no entanto, disse saber que não se cria um novo sistema da noite para o dia. É preciso levar em conta as dificuldades específicas de cada nação. No meu primeiro mandato, estabelecemos com a Argentina a compra de pequenas empresas usando moeda brasileira e argentina. Esse é um processo que deve ser discutido conforme o que for mais vantajoso para cada país.
Relação com EUA
Lula reiterou que tem uma boa relação com o presidente dos EUA, Donald Trump, e que está disposto a conversar com ele sobre as questões consideradas importantes para os dois países, o que inclui parcerias voltadas à exploração de minerais críticos em território brasileiro.
Ele falou sobre a percepção pessoal que tem do presidente dos EUA. Já tive a oportunidade de observar que Trump é um especialista em marketing digital e redes sociais. Ele trata isso como um programa de TV. Em encontros pessoais, entretanto, ele é muito mais calmo e demonstra tranquilidade.
O presidente brasileiro acrescentou que pretende aproveitar os encontros que terá com Trump para buscar acordos que possam servir de exemplo ao mundo, em especial relacionados ao combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas; e à questão dos minerais críticos e das terras raras.
O Brasil possui muitos minerais críticos e terras raras, mas não queremos transformar nosso país em um santuário da humanidade, disse ele ao defender que a exploração desses materiais deve ser feita sem imposições externas.
Não posso colocar em discussão minha soberania ou a democracia no Brasil. Isso pertence a mim e ao meu povo. Mas, do ponto de vista comercial, estou disposto a negociar com os EUA, assim como vou negociar com o primeiro-ministro Modi [da Índia].
Relação Brasil-Índia
Sobre a relação entre Brasil e Índia, Lula defendeu que ela seja fortalecida, motivo pelo qual levou, na viagem, 300 empresários brasileiros. E haverá mais de 300 empresários indianos no fórum de negócios. Queremos que a relação cultural, política, comercial e econômica seja muito forte, disse.
Queremos aprender com a Índia e ensinar o que podemos ensinar. Queremos comprar e vender; mostrar a experiência das nossas empresas e construir parcerias que beneficiem os povos, e não apenas vitórias isoladas. É por isso que defendo o multilateralismo, concluiu.
Matéria ampliada às 14h18
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