SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Quando o Império Romano invadiu a Bretanha (região mais ou menos correspondente à Inglaterra e ao País de Gales de hoje), os povos dominados por Roma não só perderam a independência política como também pioraram significativamente de saúde. A conclusão vem de uma análise que mostrou o aumento de problemas de desenvolvimento e metabolismo em crianças e mulheres da região na época do domínio imperial.

A piora nas condições de saúde pública dos bretões, como os romanos os chamavam, parece estar ligada principalmente à urbanização trazida pelos exércitos de Roma, segundo um estudo publicado em dezembro no periódico Antiquity.

De fato, apesar da presença de obras públicas de grande porte, como aquedutos e casas de banho, as cidades romanas costumavam ser apinhadas e com condições sanitárias precárias, o que provavelmente acerbava a transmissão de doenças infecciosas, principal causa de mortalidade no começo da Era Cristã.

Assinada por Rebecca Pitt, do Departamento de Arqueologia da Universidade de Reading (Reino Unido), a pesquisa analisou detalhes do esqueleto de 274 mulheres adultas, na faixa etária em que poderiam ser mães, e de 372 crianças com idade estimada inferior a 3 anos.

A lógica por trás desse grupo é simples: seriam idades particularmente sensíveis ao estresse sobre o organismo, o que, por sua vez, tendia a se refletir na saúde geral da população e nos filhos dessas mulheres, por exemplo.

Os mais de 600 esqueletos correspondem a duas grandes faixas temporais. A primeira é a Idade do Ferro, período imediatamente anterior ao ano 43 d.C., quando se iniciou a invasão e conquista da Bretanha a mando do imperador Cláudio (o começo da Idade do Ferro na região é datado por volta de 800 a.C.).

Enquanto os restos mortais da Idade do Ferro vieram de todas as regiões inglesas, os do período romano, que vai até mais ou menos 400 d.C. (época em que as forças imperiais abandonaram a Bretanha à própria sorte), são das regiões mais ao sul e ao leste do país. A pesquisadora explica que evitou analisar amostras do norte e do oeste porque essas áreas eram regiões de fronteira sob ocupação militar direta, o que poderia distorcer os dados, levando em conta as diferenças nas condições de vida.

Outra precaução metodológica adotada por Pitt foi analisar apenas sepulturas "populares" ?corpos que vieram de grandes mausoléus familiares, com sarcófagos de pedra ou grande quantidade de oferendas funerárias, não foram incluídos na análise. No período romano, há amostras tanto de áreas urbanas quanto de assentamentos na zona rural bretã.

Por fim, para conseguir detectar as principais patologias ligadas a fatores como nutrição e desenvolvimento, a pesquisadora só analisou esqueletos em que havia preservação da calota craniana, da parte torácica da coluna vertebral e dos ossos longos (os das pernas e dos braços).

No caso das crianças, um dos truques usados pela pesquisadora para tentar detectar uma trajetória de desenvolvimento "truncada", afetada por fatores como doenças infecciosas graves e desnutrição, foi comparar a idade estimada com base no desenvolvimento dentário (com o aparecimento progressivo dos dentes) e o comprimento esperado dos ossos longos ?ossos mais curtos que a média para a idade indicariam que a criança não cresceu o suficiente, por exemplo.

Várias outras pistas que se preservam nos dentes e nos ossos ajudam a estimar a presença de doenças, desnutrição e estresse em pessoas que viveram há milhares de anos. Nos dentes, por exemplo, além da presença de cáries, que é sinal de dieta inadequada, há a chamada hipoplasia do esmalte, que produz defeitos na formação da parte externa do dente e está ligada ao estresse, e as periodontites, que afetam as gengivas e outros tecidos, associadas a infecções.

No crânio, é possível identificar a cribra orbitalia, também ligada a estresse e dieta pobre em nutrientes, que produz poros nas órbitas dos olhos. E há ainda doenças como a tuberculose e deficiências de vitamina C e D, que deixam marcas em diferentes ossos.

Levando tudo isso em conta, a pesquisadora descobriu que 26% das crianças da Idade do Ferro bretã apresentavam algum tipo de patologia dentária ou óssea, contra 41% das que morreram na zona rural do período romano e 61,5% das cidades fundadas ou ampliadas por Roma na região. A lesão mais comum é algum tipo de infecção óssea.

No caso das mulheres adultas, 81,1% das que morreram nas cidades romanas tinham algum tipo de patologia. Já as amostras da Idade do Ferro e da zona rural romana praticamente empataram (62,1% e 63,5% de mulheres com o esqueleto ou os dentes afetados, respectivamente).

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