SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de 40 entidades médicas e especialistas vinculados a instituições de saúde da América Latina, incluindo o Brasil, defendem que a não adesão ao tratamento de doenças crônicas como diabetes e hipertensão seja reconhecida como fator de risco modificável para eventos cardiovasculares, como infarto e AVC (acidente vascular cerebral) ?que integram as doenças cardiovasculares, apontada como principal causa de morte no mundo.
A proposta consta no documento "Recomendaciones de Expertos Latinoamericanos en Adherencia e Inercia Terapéutica Cardiovascular, y su Impacto en Salud Pública", que reúne o consenso de 43 especialistas da região e se apoia em 275 referências científicas, entre estudos de coorte, ensaios clínicos, revisões sistemáticas e metanálises.
O documento aborda principalmente condições cardiovasculares e metabólicas de alta prevalência, como hipertensão arterial, diabetes tipo 2, dislipidemia (colesterol elevado), doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca e doença renal crônica ?diagnósticos que exigem tratamento contínuo e controle rigoroso de fatores de risco.
Segundo os autores, a falta de adesão ao tratamento das doenças reduz a eficácia das intervenções médicas e permite que a condição siga seu curso natural até complicações potencialmente evitáveis. Por ser uma conduta que pode ser modificada, assim como o sedentarismo, a obesidade e o tabagismo, especialistas defendem que seja tratada como fator de risco modificável.
Publicado em setembro do ano passado pela Sociedade Colombiana de Cardiologia e Cirurgia Cardiovascular, com apoio da Sociedade Interamericana de Cardiologia e da Sociedade Brasileira de Hipertensão, o livro técnico busca oferecer ferramentas a profissionais, especialmente da atenção primária, para qualificar o cuidado e enfrentar o impacto da baixa adesão na saúde pública latino-americana.
O documento estima que o descumprimento de tratam entos para doenças crônicas gere custos adicionais superiores a US$ 2 bilhões por ano na América Latina, em razão de hospitalizações, atendimentos de emergência e complicações evitáveis.
Além da baixa adesão por parte do paciente, os especialistas destacam a chamada inércia clínica -quando o tratamento não é ajustado mesmo diante de metas não atingidas. Eduardo Barbosa, colaborador brasileiro da publicação e chefe do Departamento de Hipertensão e Dinâmica Vascular da Santa Casa de Porto Alegre, afirma que a baixa adesão e inércia terapêutica estão entre os principais entraves no controle das doenças crônicas associadas ao risco cardiovascular.
A não adesão ao tratamento da hipertensão aparece como exemplo mais frequente para eventos cardiovasculares, isso devido a sua alta prevalência no mundo e por exigir acompanhamento contínuo e ajustes terapêuticos regulares.
Barbosa explica que a adesão diz respeito ao quanto o paciente segue as orientações médicas e mantém o tratamento ao longo do tempo. Já a inércia ocorre quando, mesmo sem atingir as metas clínicas estabelecidas, o tratamento não é ajustado.
"Às vezes o paciente está muito próximo da meta, e o médico opta por reforçar orientação de dieta e exercício, mas não ajusta a medicação", explica.
Para Barbosa, reconhecer formalmente a má adesão e a inércia terapêutica como fatores de risco pode levar o tema às próximas diretrizes de entidades como a Sociedade Brasileira de Cardiologia, a Sociedade Brasileira de Nefrologia e a Sociedade Brasileira de Hipertensão.
Entre as principais razões para o abandono do tratamento estão desconhecimento sobre a própria doença, desconfiança em relação ao médico, uso de múltiplos comprimidos ao dia e esquemas complexos. Quanto maior o número de medicamentos e tomadas diárias, pior tende a ser a adesão.
O livro elenca estratégias para enfrentar o problema, como simplificar o tratamento com combinação de fármacos em dose única diária, estabelecer metas claras com o paciente, evitar jargões técnicos e fortalecer a comunicação empática. O envolvimento da família e o uso de ferramentas digitais também são apontados como aliados.
"Quanto mais o paciente entende a doença e confia no médico, maior a adesão. E melhorar a adesão é fundamental para reduzir infartos, AVCs, custos e perda de qualidade de vida", afirma.
O cardiologista Eduardo Lima, do Hospital Nove de Julho e líder da cardiologia da Rede Américas, diz que o objetivo do documento é "trazer luz sobre um problema muito antigo" e delimitar responsabilidades na relação entre médico e paciente.
"Não adesão não é só responsabilidade do paciente, também é responsabilidade do médico", afirma. Ele ressalta que cabe ao profissional explicar a gravidade da doença, as consequências da interrupção do tratamento e os possíveis efeitos colaterais.
Lima relata que alguns pacientes com hipertensão, por exemplo, suspendem o remédio em dias mais quentes ou ao registrar valores momentaneamente mais baixos de pressão.
"Ele precisa entender que aquela medicação que ele usa de manhã, na verdade, vai agir durante 24 horas", explica.
No ano passado, a Federação Mundial do Coração (WHF) lançou um movimento global para chamar a atenção sobre a não adesão a tratamentos e a mudanças de estilo de vida. O alerta mostrou que o problema atinge mais da metade dos pacientes de doenças crônicas e tem piorado os resultados de saúde.
Na época, reportagem da Folha mostrou que a não adesão a tratamentos de doenças crônicas gira em torno de 50% no Brasil, índice semelhante ao observado globalmente. Na Europa, a baixa adesão está associada a 200 mil mortes anuais e poderia gerar economia de mais de 330 milhões de euros em dez anos caso chegasse a 70%. Nos Estados Unidos, a não adesão eleva os custos anuais por paciente para até US$ 52 mil, devido ao aumento de hospitalizações e atendimentos de emergência.