SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quantas pessoas você acha que Daniela Mercury conseguiu atrair para a rua da Consolação, na região central de São Paulo, neste domingo (22) de pós-Carnaval?

Gente para caramba, sobre isso não há dúvida. Mas consideravelmente menos do que os 2 milhões de foliões estimados pela organização, segundo uma análise feita por Mariana Aldrigui, professora de políticas de turismo na USP, em parceria com a equipe do Monitor do Debate Político, do Cebrap/USP.

Seria mais correto, de acordo com esse cálculo, falar em algo em torno de 20 mil pessoas presentes no pico do Pipoca da Rainha, o megabloco liderado pela baiana.

O levantamento também dimensionou o público do Sertanejinho do Teló, conduzido por Michel Teló no domingo carnavalesco no parque do Ibirapuera: 21 mil. A assessoria do cantor falava em um milhão de pessoas antes do bloco.

Quer dizer que, no fim, a folia de Mercury e Teló foram um fiasco? Claro que não. As fotos mostram a superlotação das regiões onde eles se apresentaram.

O problema é de outra ordem: quando se trata de mensurar multidões, a hipérbole virou unidade de medida. Repete-se sem pestanejar que determinado bloco "arrastou milhões", ainda que sem lastro matemático, e é aí que mora o perigo estatístico, segundo Aldrigui.

Nossa incapacidade de entender as dimensões nos fazem achar que qualquer aglomeração tem milhares, até milhões de pessoas", diz a pesquisadora.

O fenômeno se repete em vários eventos no calendário da cidade, da Parada LGBT+ à Marcha para Jesus, passando por manifestações de diferentes vertentes políticas: pesquisadores informam números muito abaixo do divulgado, muitas vezes causando indignação em quem está acostumado com números superlativos reproduzidos por anos em canais oficiais, redes sociais e imprensa.

Mas tecnologias recentes, baseadas em monitoramento por câmeras, dados de telefonia móvel e modelos de inteligência artificial para estimar fluxo e densidade, vêm desmontando o que pode não passar de uma fantasia aritmética.

O cálculo proposto por Aldrigui em colaboração com o Monitor do Debate se valeu de uma combinação de tecnologia de ponta e análise de limites físicos dos espaços que receberam os megablocos.

O método usado se chama P2PNet. Funciona da seguinte forma: um drone tira fotos aéreas da multidão em diferentes horários para captar a dinâmica de entrada e saída de pessoas. Então um software, treinado com bases de dados de retratos de multidões, analisa as imagens para identificar e marcar automaticamente as cabeças das pessoas.

O sistema localiza cada indivíduo e conta quantos pontos (cabeças) aparecem na foto. O método possui uma precisão de 72,9% e acurácia de 69,5%, o que resulta em um erro percentual absoluto médio de 12%. Isso significa que, se a contagem indicar cem mil pessoas, o valor real pode variar entre 88 mil e 112 mil.

Aldrigui também utiliza dados georreferenciados do portal GeoSampa para mapear o espaço real disponível nas vias.

A professora da USP dá como exemplo a rua da Consolação. Ela tem quase 30 metros de largura. Vamos supor que cada pessoa ocupe 50 cm x 50 cm e coloquemos uma do lado da outra -o tamanho padrão de um box de chuveiro, por exemplo, é de 90 cm x 90 cm.

"Enfileiradinhos assim, bonitinhos, esse volume de gente ocuparia 16,6 km. Então a gente conseguiria pôr pessoas da praça Roosevelt até praticamente Taboão da Serra", afirma Aldrigui.

Todo mundo que já esteve numa aglomeração, ela diz, sabe que há trechos de maior aperto e outros com mais espaço.

Ela explica que as fotos dos megablocos foram tiradas em diferentes horários. No de Teló, às 13h09, 13h42 e 14h31. No de Mercury, às 15h45, 16h20 e 17h. Há vaivém de foliões, claro. A dinâmica do bloco de Carnaval é diferente daquela observada em atos políticos, com momentos distintos de entrada e saída de pessoas, sem que, no entanto, haja substituição total do público. Considerando tudo isso, dá para cravar que nenhuma das folias ultrapassaria a marca das cem mil pessoas, de acordo com o levantamento.

Para a pesquisadora, dados mais realistas são fundamentais para pensar na infraestrutura necessária para grandes eventos na cidade, como banheiros químicos e rede de transporte. Também dá para avaliar melhor a demanda por ambulantes e estoque de produtos para venda, por exemplo.

A Secretaria de Segurança Pública diz que, neste ano, a Polícia Militar não fez estimativa de público para o Carnaval paulistano.

Procurada sobre a questão, a Prefeitura de São Paulo não respondeu. A equipe da cantora Daniela Mercury foi procurada na noite desta segunda-feira e nesta terça-feira por mensagem, mas não se manifestou até o horário de publicação desta reportagem.

Aldrigui já havia criticado a gestão de Ricardo Nunes (MDB) por números que considerou exagerados no Carnaval de 2025. A projeção para os foliões que participariam da festa na cidade era de 16 milhões.

Toda a capital paulista, à época, tinha cerca de 12 milhões de habitantes. Seria como se todos eles decidissem participar da festa, e mais 4,1 milhões de pessoas (as populações de Belo Horizonte e Goiânia somadas) viessem de fora.