RIO DE JANEIRO, RJ, BELO HORIZONTE, MG E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Moradores de Juiz de Fora (MG) afirmam nunca ter recebido um treinamento sobre como reagir em situações de emergência. Isso apesar do município ser uma das cidades brasileiras que mais recebem alertas da Defesa Civil e que mais tem pessoas vivendo em áreas de risco.
A cidade concentra as mortes em decorrência de deslizamentos de terra na região da zona da mata de Minas Gerais, com 41 óbitos confirmados até a noite desta quarta (25). O município de Ubá contabiliza outros seis.
Dados reunidos pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) apontam que os juiz-foranos receberam 24 alertas da Defesa Civil em 2025, ano em que houve 13 ocorrências relacionadas às chuvas. Está atrás apenas de Petrópolis (RJ), com 30, São Paulo (SP), com 49, e Manaus (AM), com 65.
Este ano, são 11 alertas e 35 ocorrências registradas até a noite desta quarta.
O principal município da zona da mata também é o nono no país em que mais pessoas moram em áreas de risco, com 128 mil nessa situação, segundo o Cemaden.
Mesmo assim, os moradores que conversaram com a reportagem relatam que na noite de segunda (23), quando a chuva aumentou e a Defesa Civil emitiu um alerta nos celulares, eles não sabiam o que fazer diante da situação.
"Nunca tivemos treinamento e não há alerta de sirene. Recebemos o alerta pelo celular, foi um alerta geral, mas a gente não imaginou que aquela área pudesse ser afetada", diz Juliana Cristina de Souza, 42, dona de casa, moradora do bairro Esplanada.
Ela conseguiu sair de casa com a filha, a mãe e três netos na manhã de terça-feira (24).
O relato sobre a falta de orientação em momentos de emergência é reforçado por Tatiane do Carmo, 41, diretora da escola municipal Professor Paulo Sérgio, que serve de abrigo para desalojados.
"Nunca recebemos nenhum tipo de treinamento e não imaginávamos que haveria necessidade. Tudo o que estamos vivendo é muito novo".
Questionada por email se o município possui protocolos de orientação a moradores para situações de emergência, a gestão da prefeita Margarida Salomão (PT) não respondeu.
A assessoria do governador Romeu Zema (Novo) também foi procurada por email na tarde desta quarta para comentar a falta de sistemas de sirenes no município e se há plano para serem instaladas após a tragédia, mas a reportagem não obteve resposta.
O Plano de Contingência da Defesa Civil do município não especifica quais ações os moradores devem realizar em situações de emergência. Todos os detalhes listados no documento são destinados aos órgãos municipais e entidades participantes do plano, sempre com foco no que fazer após os eventos climáticos --ou seja, não há detalhes sobre o que fazer para escapar da chuva.
A única menção à população é quando a entidade se refere aos sistemas de alertas de desastres e emergências, que são feitos via SMS, TV por assinatura, Google Alertas, WhatsApp, Telegram e Cellbroadcasting.
Para o pesquisador Jean Ometto, cidades que estão em áreas de risco precisam ter protocolos para emergências, mas também realizar um trabalho de longo prazo para se adaptar a eventos provocados pelas mudanças climáticas.
"Cidades que estão olhando para isso e estão repensando a sua estrutura urbana são as que vão estar mais preparadas a reduzir casualidades, óbitos e perdas de infraestrutura no futuro", afirma o pesquisador sênior do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Ele afirma que alguns municípios têm se preparado melhor para lidar com emergências. Cita o caso das cidades da serra do Rio de Janeiro, que ampliaram as ações após os deslizamentos de fevereiro de 2022.
A necessidade de uma adaptação estrutural por parte de Juiz de Fora é reforçada pelo geólogo Geraldo César Rocha, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Ele afirma que os deslizamentos que aconteceram no município poderiam ter sido evitados se intervenções de engenharia, como as voltadas para drenagem de água, fossem feitas em áreas de morro.
Ele usa como exemplo o morro do Cristo, um dos cartões-postais da cidade, onde ocorreu um deslizamento que atingiu o bairro Paineiras, que fica na base do morro.
"É um paredão rochoso e com o tempo os blocos vão se soltando, é um processo natural. Não é que é uma coisa divina que vai castigar, mas os blocos vão se soltando. Aí, com a chuva, o relevo acentuado, a remoção de vegetação e ocupação urbana irregular, não tem jeito", afirma o professor.
Em conversa com o presidente em exercício, Geraldo Alckmin (PSB), a prefeita Margarida Salomão afirmou que "não há estrutura que aguente" a uma chuva de 186 milímetros em quatro horas, como a registrada no município.
Para o professor da UFJF, porém, se trata de uma tragédia anunciada.
Ele aponta que a infiltração de água no morro do Cristo é visível e que uma obra estrutural antiga, de mais de 50 anos, conseguiu evitar que o desastre fosse pior.
"Essa intervenção de engenharia está no meio de duas fraturas [espaços entre rochas] e, apesar da antiguidade, segurou [o deslizamento]. Ou seja, isso aí poderia ter sido evitado", afirma o geólogo.