RIO DE JANEIRO, RJ, E CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - A sequência de temporais que provocou mortes na zona da mata mineira e deixou um rastro de deslizamentos e alagamentos no litoral de São Paulo e no Rio de Janeiro reacende uma pergunta central: até que ponto a mudança climática está por trás das chuvas cada vez mais intensas e concentradas em curto período?

Do ponto de vista científico, especialistas afirmam que não é possível atribuir automaticamente um evento isolado ao aquecimento global. Há, no entanto, consenso de que o fenômeno tem aumentado a intensidade e a frequência desses episódios.

"É difícil associar um evento específico com as mudanças climáticas", afirma Fernando Ramos Martins, professor do Instituto do Mar da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). "O evento que está acontecendo é resultado da interação de vários fatores na atmosfera, no oceano e na área continental. O clima é variável, então pode acontecer um evento extremo de tempos em tempos."

Martins ressalta, porém, que o aquecimento altera o pano de fundo desses fenômenos. "O que a gente pode falar do impacto da mudança climática é que essa frequência de acontecimentos extremos aumenta. Com a atmosfera aquecida, aumenta a capacidade dela de reter água. Ela consegue acumular volumes maiores e isso pode provocar precipitações mais intensas."

Esse mecanismo é detalhado por Gilvan Sampaio, doutor em meteorologia do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Segundo ele, o aumento da temperatura provoca dois efeitos principais nas regiões tropicais.

"Nas regiões onde se tem mais disponibilidade de umidade, ou seja, a maior parte do país, a evaporação aumenta e as nuvens ficam mais profundas, gerando chuvas mais intensas", afirma. "Já nas regiões mais secas, o aumento da temperatura vai aumentar a demanda por evaporação, só que sem ter umidade. O processo de formação de nuvem se torna menos eficiente e a tendência é que aquela região fique mais seca."

Para Sampaio, os dados já mostram mudança na frequência. "Praticamente em todo o Brasil, a frequência de chuvas intensas tem aumentado."

Ele cita o caso de São José dos Campos (SP): "Nas décadas de 1970 e 1980, você tinha 23 casos de chuvas intensas por ano. Na primeira década dos anos 2000, são 45 casos por ano, ou seja, dobrou. Mas o volume total de chuva é praticamente o mesmo."

A diferença, segundo os especialistas, está na forma como a chuva se distribui.

"Quando falamos de extremos, estamos falando de irregularidade", explica José Marengo, climatologista e coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). "Em um ou dois dias pode chover tudo o que deveria chover em um mês."

Ele afirma que estudos de atribuição já identificam uma tendência consistente de alta associada ao aquecimento global. "Como o ar está mais quente, a atmosfera tem maior vapor de água e maior capacidade de precipitar rapidamente, porque o ciclo hidrológico meio que acelera. Mas, para dizer que um evento específico é mudança climática, é preciso fazer estudos estatísticos."

O impacto dessa concentração tem ampliado áreas vulneráveis. "Antigamente não eram áreas de risco porque, apesar de chover, as chuvas não eram tão intensas", afirma o professor da Unifesp, Fernando Ramos Martins. "Hoje pode chover metade ou praticamente todo o volume do mês em dois ou três dias. A umidade no solo fica muito grande e isso facilita deslizamentos."

Segundo o climatologista José Marengo, as regiões Sudeste e Sul concentram maior exposição, tanto pela densidade populacional quanto pela infraestrutura. "Desastre depende não só da ameaça, depende também da vulnerabilidade."

O aumento dos eventos também aparece nas estatísticas de monitoramento. O Cemaden registrou 3.620 alertas em 2024, número recorde. "O número aumenta porque estamos monitorando mais municípios", diz Marengo. "Mas também aumentaram os extremos."

Para os especialistas, os sinais já são perceptíveis no presente e devem se intensificar. "Os estudos mostram que esses eventos estão se tornando mais intensos nesse momento", afirma Ramos Martins.

Diante do cenário, a adaptação urbana torna-se central. "Vai ter que pensar em um planejamento urbano mais criterioso, levando em consideração os cenários futuros de clima", diz o professor da Unifesp. Ele cita o desenvolvimento de tecnologias de alerta, evacuação preventiva e incorporação do risco climático às políticas públicas.

"A mudança climática não tem volta", conclui. "O que pode ser maior ou menor depende do ritmo que a sociedade vai continuar emitindo gases de efeito estufa. O que pode mudar é a dimensão do impacto, dependendo das decisões tomadas agora."