SÃO PAULO, SP (uOL/FOLHAPRESS) - O número de pessoas mortas em ações policiais aumentou 133% na região metropolitana fluminense de 2024 para 2025, e os confrontos armados entre milícias e facções por territórios do Grande Rio também cresceram consideravelmente no mesmo período. Os dados são de um relatório do Instituto Fogo Cruzado divulgado nesta quinta-feira (26).

Ao menos 231 pessoas morreram durante 31 ações policiais em 2025 na região metropolitana do Rio, conforme o estudo. Já em 2024, 99 foram mortos em 28 ações que o Fogo Cruzado classifica como "chacinas policiais" -episódios em que três ou mais civis são mortos durante uma ação policial-, no Grande Rio. A alta é puxada pelas mortes de outubro, em uma operação contra o Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão, na região norte do Rio. A ação policial resultou em 122 mortes.

O mesmo ano bateu recorde de tiroteios motivados por disputas territoriais entre facções e milícias na região fluminense, segundo o instituto. No ano passado, 275 confrontos armados entre os grupos criminosos foram registrados na região metropolitana, com 180 pessoas baleadas. Esse é o maior número registrado desde o início do monitoramento do dado pelo Fogo Cruzado, em 2017, e representa um crescimento de 26% em relação a 2024, quando houve 218 tiroteios.

Dados sobre o aumento da letalidade policial e de disputas entre grupos criminosos são fundamentais para compreender o "dilema" da segurança pública nacionalmente, segundo a diretora executiva do Fogo Cruzado. Para Cecília Oliveira, os números recém-divulgados "são dados de uma mesma moeda", que apontam para o fortalecimento de facções e milícias no Rio de Janeiro e pelo país.

"O Estado investe na mesma política há 30 anos, não desarticula esses grupos nem promove segurança, mesmo com a crescente letalidade policial. Não tem como esperar um resultado diferente quando insistimos na mesma estratégia que sabemos que não dá resultado", disse Cecília Oliveira, diretora do Fogo Cruzado.

Ações policiais repressivas e isoladas "não mudam absolutamente nada no tabuleiro do crime", avalia Oliveira. Para ela, essas operações colocam a população ainda mais na linha de tiro, além de interferir frequentemente no funcionamento de escolas e unidades de saúde. "Estes grupos estão dominando mais áreas, subjugando mais pessoas e ganhando cada vez mais dinheiro e poder, [o que se torna] especialmente importante em anos eleitorais, como o que temos pela frente", acrescentou.

O QUE DIZ O GOVERNO FLUMINENSE

A Secretaria de Segurança Pública do Rio informou que "as forças de segurança atuam de forma integrada e permanente no combate às organizações criminosas". O foco da atuação do órgão, ainda conforme o órgão fluminense, é a prisão de lideranças, a apreensão de armamentos e "a desarticulação de estruturas financeiras de facções e milícias, priorizando a preservação de vidas e a redução dos índices de criminalidade no estado".

Indicadores criminais da Polícia Civil estão baseados no ordenamento jurídico brasileiro, que não inclui a categoria "tiroteio" nos registros de ocorrência, segundo a pasta. A secretaria informou em nota que "as estatísticas criminais compiladas e divulgadas pelo Instituto de Segurança Pública são construídas a partir dos Registros de Ocorrência lavrados pela Secretaria de Estado da Polícia Civil, além de informações complementares de órgãos específicos da Secretaria de Estado da Polícia Militar do Rio de Janeiro". Por isso, ressaltou, o órgão não tem dados sobre tiroteios.

"No âmbito das discussões decorrentes da ADPF [Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental], foram criadas as titulações 'Homicídio em Contexto de Confronto Armado com Agente de Segurança' e 'Lesão Corporal em Contexto de Confronto Armado com Agente de Segurança'. Contudo, tais classificações não correspondem a uma tipificação específica de "tiroteio", então não há definição normatizada nem por outros entes federativos, tampouco pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública do Governo Federal", disse a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, em nota.

"É importante ressaltar que as estatísticas de crimes contra a vida dependem do contexto da investigação e da perícia técnica específica que levou à morte", acrescentou o órgão. "Dessa forma, diante da inexistência de metodologia previamente definida, tipificada e amplamente utilizada pelos demais entes públicos, torna-se inviável para o Instituto adotar e/ou apurar estatísticas com base nessa terminologia".

SOBRE A METODOLOGIA DO FOGO CRUZADO

Metodologia do instituto tem base em registros colaborativos e sistemáticos de episódios de violência, mapeados nas regiões metropolitanas de Recife, Rio de Janeiro, Salvador e Belém. Os dados do Fogo Cruzado, segundo informado pelo instituto, são coletados por meio de informações públicas dos órgãos de segurança, também via usuários -por meio do aplicativo e redes sociais da organização-, e por informações divulgadas pela imprensa e posteriormente checadas por analistas do instituto.

Uma vez notificado sobre um tiroteio, o analista do Fogo Cruzado checa a veracidade da informação, conforme os critérios pré-estabelecidos pela organização, antes de cadastrá-la no banco de dados. Nessa etapa, os analistas buscam analisar uma série de características dos episódios de violência armada, bem como avaliam marcadores geográficos e temporais para evitar duplicações. Instituto Fogo Cruzado, em nota