SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Muito antes de despachar no Morumbi, na zona oeste de São Paulo, os governantes paulistas ocuparam um local que já tinha sido um colégio jesuíta, passaram por um palácio de inspiração francesa e só chegaram ao atual endereço após um incêndio acelerar a mudança definitiva.
O leilão nesta quinta-feira (26) do novo centro administrativo, uma das principais promessas do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), resgata uma história de deslocamentos do poder em São Paulo. A nova sede do governo estadual tem conclusão prevista para 2030.
Ao longo dos séculos, a sede do poder paulista mudou de endereço acompanhando transformações políticas, econômicas e simbólicas do estado. Do centro histórico ao Morumbi, cada edifício expressa, segundo especialistas, uma ideia distinta de poder: religioso, imperial, republicano ou monumental.
O marco inicial do poder paulista remonta a 25 de janeiro de 1554, quando foi celebrada a missa que marcou a fundação da cidade no então Colégio dos Jesuítas, o que viria a ser o Pateo do Collegio.
A construção original era simples, feita de taipa de pilão, barro e palha. Em 1556, ganhou novas edificações para a igreja e o colégio. Ao longo do século 17, foi reconstruída e ampliada. Em 1759, com a expulsão dos jesuítas pela coroa portuguesa, o prédio foi confiscado e convertido, a partir de 1765, em Palácio do Governo e residência dos capitães-generais.
Com a independência, o edifício continuou abrigando os presidentes da província. Em 1835, após o Ato Adicional do Império, passou também a sediar a recém-instalada Assembleia Legislativa Provincial, como lembra publicação oficial da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Executivo e Legislativo dividiram o mesmo espaço até 1879.
Para a arquiteta e urbanista Raquel Schenkman, conselheira superior do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil ) e mestre pela FAU-USP, o edifício representa uma "sobreposição de poderes".
"É um prédio público construído sobre a estrutura jesuítica, o que simboliza a substituição de uma ordem religiosa por uma ordem estatal. Há uma narrativa de continuidade do poder, mesmo com mudanças de regime", afirma.
Ela ressalta que a noção de sede administrativa naquele período não corresponde ao conceito republicano atual. "Não se tratava de uma sede planejada como centro administrativo moderno. Era um edifício que acumulava funções e refletia a estrutura política da época."
O local permaneceu como centro do poder paulista até 1935, atravessando o período colonial e imperial.
No início do século 20, o governo paulista se transferiu para o Palácio dos Campos Elíseos, na região central. O edifício, originalmente conhecido como Palacete Elias Chaves, foi projetado pelo arquiteto alemão Matheus Häusler e construído entre 1890 e 1899 como residência do cafeicultor Elias Antônio Pacheco e Chaves.
Inspirado no Castelo de Écouen, na França, o palacete de aproximadamente 4.000 m² simbolizava o poder econômico da elite cafeeira paulista. Em 1911, foi adquirido pelo governo estadual e passou a ser residência oficial dos governadores. Em 1935, tornou-se formalmente sede administrativa.
De acordo com informações do Museu das Favelas, que ocupou o prédio, o palácio funcionou como sede do governo até 1965. Um incêndio, em 1967, destruiu parte da estrutura e levou ao fechamento para restauro. O imóvel foi tombado pelo Condephaat em 1977 e, após diferentes usos administrativos, abrigou de 2022 a 2024 o museu.
Para Schenkman, a arquitetura do palácio traduz o ecletismo da virada do século.
"Não é uma arquitetura clássica pura, mas eclética, ligada ao desejo de São Paulo de se afirmar como metrópole moderna e europeizada. A escolha de uma residência privada da elite cafeeira como sede do governo também comunica essa proximidade entre poder econômico e poder político", explica.
Ela compara o gesto ao que ocorreu com o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, outra residência aristocrática transformada em sede governamental. "Há uma mensagem simbólica forte quando o Estado ocupa a melhor casa da cidade."
A mudança para o Morumbi ocorreu em 22 de abril de 1964, quando o governo passou a funcionar no Palácio dos Bandeirantes.
O prédio havia sido projetado originalmente para sediar a Universidade Comercial Conde Francisco Matarazzo, projeto que não se concretizou. O governo estadual adquiriu o imóvel em 1964 e o inaugurou no ano seguinte com o nome atual, em referência aos bandeirantes.
O projeto arquitetônico inicial foi concebido pelos italianos Marcello Piacentini e Vittorio Ballio Morpurgo, posteriormente modificado por Giuseppe Crosa di Vergagni. O resultado é uma construção de linhas ecléticas com forte influência neoclássica, marcada pela monumentalidade e pela simetria da fachada.
Segundo o Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado, o edifício também incorporou obras transferidas do Palácio dos Campos Elíseos e passou a funcionar como palácio-museu a partir de 1977, com abertura à visitação pública.
Para Schenkman, a linguagem arquitetônica adotada nos anos 1960 carrega significado político.
"Após a construção de Brasília com uma arquitetura moderna e arrojada, optar por uma estética neoclássica é um gesto simbólico de resgate da tradição e da autoridade. A monumentalidade ajuda a consolidar a imagem institucional do Estado."
Ela observa ainda que o nome e a iconografia associada aos bandeirantes evocam uma ideia de desbravamento e domínio territorial que hoje é objeto de debate. "A arquitetura e o nome ajudam a construir uma narrativa de poder que reflete o imaginário de cada época."