SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo usou informações erradas e sem comprovação judicial no inquérito que resultou na prisão de três policiais responsáveis pela segurança particular de diretores da Transwolff, empresa de ônibus investigada por suposto vínculo com a facção criminosa PCC.

Os investigadores sustentam que os PMs Alexandre Paulino Vieira, Alexandre Aleixo Romano Cezario e Nereu Aparecido Alves realizaram segurança para pessoas sabidamente ligadas ao PCC e, com isso, viabilizaram a prática de lavagem de capitais supostamente cometida por diretores da Transwolff.

Para basear parte dessa afirmação, a PM usa, porém, uma informação incorreta. Ela cita em documentos que a ligação entre a empresa de ônibus e o PCC era conhecida desde 2020, quando o então presidente da Transwolff, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, foi denunciado pela Promotoria na primeira fase da Operação Sharks.

Pacheco não estava, porém, entre os denunciados. Havia 19 supostos integrantes da cúpula do PCC, entre eles Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, mas o dirigente da Transwolff não estava entre os investigados. O nome da empresa de ônibus também não é citado na denúncia.

Os mais perto disso foi a inclusão na lista de suspeitos do nome Gilberto Flares Lopes Pontes, suposto membro do PCC. Gilberto era irmão de Robson Flares Lopes Pontes, funcionário da empresa de ônibus. O suspeito ficou foragido até ser morto em 2021 por membros da facção.

Na documentação enviada para a Justiça Militar, Luiz Pacheco é tratado como faccionado do PCC. Diz tratar-se de elemento "conhecido como Pandora, notoriamente conhecido como liderança do PCC".

A ligação de Pandora com o PCC, porém, ainda está sendo discutida na Justiça. Ele foi preso em 2024 durante a Operação Fim da Linha, por suposto envolvimento com a facção, mas seus advogados conseguiram liberá-lo após alegar fragilidade nas provas sobre tal vínculo.

Pandora é réu sob a suspeita de ter lavado dinheiro em favor da facção, além das acusações de apropriação indébita, extorsão e organização criminosa. Ele nega a acusação. Os advogados dele afirmam que ele nunca foi denunciado ou condenado por ligação com o PCC.

Em 2006, 20 anos atrás, Pandora foi investigado por suspeitas de ligação com a facção, mas o inquérito acabou a pedido do próprio Ministério Público, antes mesmo da denúncia, diz a defesa.

O Ministério Público também apura suposta ligação do ex-vereador Milton Leite na administração da Transwolff. A suspeita é que ele seja o verdadeiro dono da empresa.

Nos documentos da Polícia Militar, porém, tal ligação é dada como certa. Em relatório que faz parte do inquérito, os policiais afirmam que uma construtora, que tem como sócio o ex-vereador, "pode ter sido usada para viabilizar o fluxo de capitais dentro da Transwolff, uma vez que era efetivamente comandada por Leite, ao lado dos criminosos faccionados Pandora e Ré."

O relatório não informa quais são as provas de que o ex-vereador comanda a empresa. São citadas reportagens que tratam do aluguel de um terreno pertencente à Neumax que é alugado pela Transwolff.

A defesa de Pandora diz que "Milton Leite nunca teve qualquer participação societária na Transwolff, nunca participou da gestão ou 'deu ordens' na empresa e se reputa que tal afirmação está completamente equivocada e dissociada da realidade".

PM DIZ QUE INQUÉRITO É CONDUZIDO COM RIGOR

Procurada por meio da Secretaria da Segurança Pública, a Corregedoria da PM diz que o inquérito foi conduzido "com rigor técnico, em acordo com o Código de Processo Penal Militar e o devido encaminhamento das provas coletadas ao Poder Judiciário para julgamento das medidas cautelares".

"O procedimento segue em conformidade com a legislação, assegurando o direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Os três policiais alvos da operação passaram por audiência de custódia, tiveram as prisões mantidas pela Justiça e permanecem detidos no Presídio Militar Romão Gomes", diz trecho da nota enviada.

Já o Ministério Público informou que não comentaria o assunto. "Esse processo está sob segredo de Justiça, portanto as informações e documentos nos autos são de acesso restrito às partes e advogados, sendo assim a promotoria de Justiça Militar não se manifestará à imprensa."

Milton Leite disse, por meio de nota, que "a Corregedoria da PM não apresenta nenhum indício de que eu comandava tal empresa porque eu realmente não sou nem nunca fui dono dela". Ele afirmou que "o que sempre houve foi uma simples relação comercial entre as empresas e nada além disso".

"Lamento que, apesar de 30 anos de vida pública e de ter aberto voluntariamente todos os meus sigilos ao Ministério Público, minha palavra não tenha impedido que notícias erradas e mentirosas fossem veiculadas", finaliza a nota.