RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - O empresário Alcir Queiroga Teixeira Júnior, preso em operação da Polícia Civil do Amazonas contra um suposto núcleo político do CV (Comando Vermelho) no estado, afirmou em depoimento que a ex-chefe de gabinete do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), Anabela Cardoso Freitas, pagava passagens aéreas, hospedagens e aluguel de veículos em dinheiro vivo.
Alcir é dono de uma empresa de turismo responsável por fazer essas vendas. Os bilhetes seriam destinados ao prefeito David Almeida, ao vice-prefeito Renato Júnior, a servidores da prefeitura e também a familiares do prefeito.
O conteúdo do depoimento foi divulgado pela Rede Amazônica (filiada da Globo no Amazonas) e confirmado pela Folha de S.Paulo.
Por meio de nota, a Prefeitura de Manaus disse que o prefeito David Almeida e o vice-prefeito e titular da Seminf (Secretaria Municipal de Infraestrutura) não são investigados na operação.
"Por não terem tido acesso aos autos, o prefeito David Almeida e o vice-prefeito Renato Junior não se manifestarão sobre declarações atribuídas a terceiros e reiteram a confiança nas instituições competentes e no regular curso do devido processo legal", disse.
O advogado responsável pela defesa de Anabela foi procurado no início da tarde desta quinta-feira (26), mas não respondeu aos contatos por mensagem. Já o advogado que estava responsável pela defesa de Alcir disse ter deixado o caso. A reportagem tenta encontrar o novo representante.
A operação, realizada na última sexta-feira (20), apontou indícios de que o grupo criminoso fazia pagamentos a funcionários públicos para obter acesso a informações sigilosas, como mandados de prisão e outras decisões judiciais em processos em segredo de Justiça.
Na ocasião, 14 pessoas foram presas sob suspeita de envolvimento no esquema, sendo oito no Amazonas e seis nos outros estados. Nove pessoas seguem foragidas, inclusive o líder apontado pela polícia.
Além de ter trabalhado no Executivo municipal, Anabela é investigadora da Polícia Civil concursada.
Um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontou que ela teria recebido dinheiro de empresas ligadas à rede de empresas suspeitas de servirem de fachada para o tráfico de drogas.
Cerca de R$ 1,5 milhão teriam passado pela conta bancária dela, segundo relatório policial. A renda dela é considerada incompatível com a transação. Do total, cerca de R$ 1,3 milhão foram transferidos a um homem investigado por lavagem de dinheiro e tráfico de drogas.
"Anabela comparava passagens para outras pessoas, como David Abisai Almeida (Prefeito de Manaus), e outras pessoas da gestão da prefeitura, [...] tal como ocorreu na famosa viagem de David ao Caribe" e que "o pagamento por essas passagens das citadas pessoas foi à vista, com dinheiro em espécie, sendo aproximadamente R$ 34.000,00", diz trecho do depoimento de Alcir.
Ele afirmou, ainda, que "quando as passagens eram para pessoas da prefeitura de Manaus, os pagamentos eram em espécie, que não sabe a origem do dinheiro usado para pagamento das passagens; que não sabe dizer se o dinheiro usado para pagar as passagens de pessoas vinculadas à Prefeitura de Manaus tinha origem do tráfico de drogas ou do crime organizado".
Segundo Alcir, as cédulas para pagamentos eram de R$ 50 e R$ 100, "sendo que às vezes tinha notas de R$ 20". Ele negou ter recebido o valor aproximado de R$ 1,3 milhão e disse não saber de onde o Coaf havia tirado o valor vinculado a Anabela.
Alcir é investigado por suspeita de envolvimento com lavagem de dinheiro, organização criminosa e tráfico de drogas.
O depoimento do suspeito foi anexado a um pedido de habeas corpus preventivo feito pelo vice-prefeito de Manaus, Renato Júnior (Avante), e familiares do prefeito David Almeida no último domingo (22). Eles desistiram do pedido antes que ele fosse julgado, conforme documento desta quarta-feira (25).
As investigações sobre o suposto núcleo político começaram após a apreensão de mais de 500 tabletes de maconha do tipo skunk, sete fuzis de uso restrito, duas embarcações usadas no transporte da droga, um veículo utilitário e aparelhos celulares. Um dos envolvidos foi preso em flagrante na ocasião.
No celular de um investigado, foram encontrados contatos salvos com bandeiras vermelhas na agenda virtual, o que, segundo a Polícia Civil, é indício de ligação com o Comando Vermelho.
Segundo o delegado Marcelo Martins, além de fornecer informações sigilosas, agentes públicos podem ter sido pagos para influenciar órgãos da administração pública em benefício dos traficantes.
"Esse era o objetivo do grupo, ter acesso e influência para resolver problemas internos da organização", disse o delegado. "Isso ficou evidente após a extração de dados de um aparelho celular apreendido, no qual o líder afirmava ter pessoas em todos os órgãos e dizia não temer a prisão, pois pagava todos."
Segundo o delegado, o grupo utilizava empresas registradas no setor de logística para movimentar recursos e dar aparência de legalidade ao transporte de drogas.