SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A atual concessão ao setor privado do vale do Anhangabaú está por um fio em meio a reclamações envolvendo barulho excessivo provocado por eventos e shows noturnos, funcionamento inadequado de equipamentos e constantes bloqueios no acesso à área no Centro Histórico de São Paulo.
Interlocutores que discutiram o futuro do espaço com o prefeito Ricardo Nunes (MDB) relataram à Folha de S.Paulo uma recente reunião tensa entre a administração municipal e os gestores do espaço, da qual ambos saíram propensos a encerrar o contrato. Uma dessas pessoas afirmou que a dissolução pode ocorrer em poucos meses. Após a conversa, Nunes teria se mostrado sem paciência para novos diálogos e disposto a tirar a empresa da gestão do espaço.
A gestão do Anhangabaú está desde 2021 sob responsabilidade do consórcio Viva o Vale, que é liderado pela WTorre, em uma concessão prevista para durar dez anos. A empresa é uma das principais gestoras de entretenimento do país e que na capital paulista também é responsável pelo Allianz Parque, o estádio do Palmeiras.
Procurado, o consórcio informou que prefere não comentar o tema neste momento. A gestão Nunes foi demandada por email pela reportagem sobre o tema nesta sexta-feira (27), mas não respondeu até o horário de publicação deste texto.
Questões contratuais impedem que as partes envolvidas se manifestem até que os termos do distrato sejam definidos, caso essa intenção se confirme.
Desde que a concessionária assumiu a esplanada de 43 mil m², a área passou a ter acessos frequentemente fechados para apresentações musicais e outras atividades com cobrança de ingresso. Em 2024, a prefeitura havia informado ter aplicado R$ 1,7 milhão em multas à concessionária e, a partir deste ano, impôs uma proibição para apresentações musicais após as 23h.
Além do cercamento para eventos privados e do barulho, há outras questões envolvendo a gestão do vale que despertam reclamações.
Há no local pouco mais de uma dezena de quiosques que deveriam abrigar lanchonetes, cafés e outros comércios de alimentos. Somente alguns passaram a funcionar recentemente após terem ficado desocupados desde o início da concessão.
As fontes luminosas instaladas no piso deveriam funcionar três vezes ao dia, mas os equipamentos que poderiam servir de elemento aquático e atrativo do local em dia de calor não são ligados com frequência.
A dinâmica vai na contramão do desenho arquitetônico que embasou a reforma de R$ 105 milhões executada na gestão do então prefeito Bruno Covas (1980-2021) para transformar a área em um parque urbano.
Resgatar a ideia de uma ampla área de lazer poderia fazer deste cartão postal da capital um dos motores para a requalificação da região central, segundo o arquiteto Silvio Oksman.
"Se a gente olhar de outra forma para o espaço público, numa área repleta de infraestrutura, o Anhangabaú poderia, ao invés de ser o pior elemento, ser o que qualifica todo o seu entorno", diz o arquiteto.
Oksman participou de uma série de reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo em janeiro em que especialistas apresentavam propostas para a recuperação do centro paulistano.
Ao tratar especificamente do Anhangabaú, ele afirma que uma reformulação da concessão para tornar o vale um parque público, impedindo a sua utilização como arena, o transformaria em atrativo para empreendimentos residenciais e comerciais.