SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um estudo brasileiro que avaliou a autopercepção genital masculina mostra que 63,2% dos homens brasileiros consideram ter o pênis acima da média. Outros 34% acham que estão dentro desse parâmetro, enquanto 2,8% dizem estar abaixo. O trabalho usou como referência o comprimento de 13 cm em ereção, média mais prevalente na literatura médica.
Um dos achados também mostra que uma autoimagem positiva da genitália está associada a um melhor desempenho erétil e autoestima.
A pesquisa intitulada "Autopercepção Genital Masculina: um Estudo Populacional" foi conduzida por pesquisadores da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública. Os resultados foram publicados em fevereiro no Journal of Sexual Medicine, uma das revistas mais relevantes de saúde sexual.
A pesquisa incluiu 106 homens com idade igual ou superior a 18 anos na cidade de Salvador (BA). Eles responderam a um questionário online acessado por meio de um QR Code distribuído em locais públicos, como shoppings, estações de metrô e praças. A maioria se autodeclarou parda e relatou ter ensino superior ou técnico incompleto.
"O reconhecimento dessas percepções subjetivas é essencial na prática clínica e no cuidado da saúde sexual, especialmente antes da indicação de qualquer procedimento cirúrgico", afirma Ubirajara Barroso, professor da UFBA e autor do estudo.
Barroso diz que o estudo foi motivado pelo aumento da procura de homens por procedimentos estéticos genitais em seu consultório e por haver poucos estudos dedicados a entender como os brasileiros percebem o próprio pênis.
Entre os participantes, 13,2% disseram que o tamanho do órgão causava ansiedade de moderada a importante. A maioria (64,2%) afirmou que esse fator não causa ansiedade alguma. Outros 22,6% disseram que ficam levemente preocupados por essa razão.
Além disso, 52,8% consideram o tamanho do pênis pouco importante para o próprio prazer. Já os que acham muito importante representam 26,4% da amostra e os que acreditam ser irrelevante, 20,8%.
O trabalho também questionou se o participante evitava se despir em público devido ao tamanho do seu pênis. Quase metade (49,1%) disse que nunca evitava, 29,2% afirmaram que às vezes, enquanto 21,7% disseram que evitam sempre ou na maioria das vezes.
Dos participantes, 22,6% afirmaram que considerariam submeter-se a algum tipo de cirurgia genital.
Segundo Barroso, os números podem refletir um panorama nacional. "Além da análise estatística e metologia aplicadas, os participantes foram recrutados de forma aleatória e não há fundamentos biológicos que indiquem diferenças regionais que impeçam a extrapolação dos resultados para a população masculina brasileira."
O estudo, porém, apresenta algumas limitações, entre elas uma amostra composta majoritariamente por homens jovens e escolarizados, o que pode limitar a representatividade. Além disso, foi utilizado um questionário desenvolvido pelos próprios autores, dificultando comparações com outras pesquisas. Os dados são autorrelatados e não houve verificação clínica objetiva das medidas genitais.
"Estamos fazendo um estudo que está realizando medições penianas e registros fotográficos. O objetivo é analisar se há relação entre medidas objetivas, simetria, aparência e autopercepção. Com isso, será possível identificar quantos homens têm pênis dentro da normalidade, mas acreditam que não têm", afirma Barroso.
NEM TUDO É QUESTÃO DE TAMANHO
Uma publicação do World Population Review, de 2024, concluiu que o tamanho médio do pênis humano ereto varia entre 12,9 cm e 13,92 cm. A organização fez um ranking com 142 países e o Brasil está em 20º lugar na lista de locais com maior tamanho médio do órgão, com uma média de 15,70 cm.
O tamanho do pênis, porém, costuma ter menos impacto na satisfação sexual da parceira do que muitos homens imaginam, segundo Barroso, da UFBA.
"Pesquisas mostram que, quando mulheres ranqueiam os fatores mais importantes na vida sexual, o tamanho do pênis geralmente aparece entre os menos relevantes. Comunicação, conexão emocional, estímulo adequado e qualidade da interação costumam pesar muito mais", afirma.
Um estudo da Universidade de Western Austrália, publicado em janeiro na revista PLOS Biology, mostra que mulheres dão melhores notas às figuras masculinas mais altas e com um órgão sexual maior. No entanto, a partir de certo ponto, aumentos adicionais no tamanho do pênis trouxeram desvantagens.
Além disso, do ponto de vista médico, a maioria dos homens tem pênis funcional para relações sexuais satisfatórias, exceto casos de micropênis -condição congênita caracterizada por pênis com menos de 5 cm de comprimento.
Para o psiquiatra Gustavo Yamin Fernandes, coordenador da equipe de psiquiatria do Hospital Samaritano Higienópolis, o acesso precoce à pornografia cria padrões irreais de comparação e alimenta uma cultura de insatisfação permanente com o próprio corpo.
"O primeiro parâmetro de comparação na vida do homem acaba vindo da indústria de filmes adultos. Mas esses atores são selecionados justamente por atributos físicos específicos, como o tamanho do pênis", diz.
Segundo Fernandes, o sinal de alerta surge quando a insatisfação deixa de ser pontual e passa a gerar ansiedade intensa e comportamentos evitativos, como evitar vestiários, relações sexuais com luz acesa ou situações de exposição do corpo, moldando a rotina pelo medo e pelo constrangimento.
O urologista Rafael Romero, do Hospital Alvorada de Moema, afirma que a insatisfação genital pode desencadear um ciclo fisiológico propício para uma disfunção erétil.
"A preocupação excessiva ativa o sistema nervoso simpático, que é antagonista da ereção. Quanto maior a autocobrança, maior o risco de falha erétil. Isso gera mais ansiedade e reforça o problema", explica.
Para Romero, antes de qualquer procedimento cirúrgico, é essencial avaliar três pontos: se há alteração anatômica real, qual é a motivação psicológica e qual é o risco-benefício da intervenção.
"A maioria dos homens que procura aumento peniano tem medidas dentro da normalidade. Em muitos casos, o acompanhamento psicológico é mais indicado do que cirurgia", diz.