JUIZ DE FORA, MG (FOLHAPRESS) - O centro comercial de Juiz de Fora estava irreconhecível às 15h30 desta sexta-feira (27), com lojas fechadas. As vizinhas Ubá e Matias Barbosa também sofreram impacto após as fortes chuvas que atingiram a zona da mata de Minas Gerais desde segunda-feira (23). Mais de 60 pessoas morreram na região devido às tempestades.

Para o comerciante Gevalmir Moreira Carneiro, 59, que há 36 anos tem um estabelecimento comercial no bairro Vitorino Braga, uma das áreas mais atingidas, não há um recomeço. "Tento seguir, escrever uma nova página, mas aí a história se repete. Vem a água de novo e o prejuízo é muito grande."

A água invadiu o estabelecimento de Carneiro na madrugada de terça-feira (24) e alcançou 1,8 metro, danificando freezers e outros equipamentos eletrônicos. Segundo ele, essa foi a terceira vez que as águas alcançaram o interior do imóvel nos últimos dois anos. "Só não desisto por causa dos amigos, das pessoas de bem que aparecem para ajudar, para não deixar a gente desistir."

O empresário Sebastião Ribeiro, 47, proprietário da loja Sagrado Bebê, na região central de Juiz de Fora, conta que esta semana foi uma das mais difíceis de toda a sua trajetória no comércio. "O que vivemos aqui na cidade foi devastador. As chuvas deixaram um rastro de destruição e um luto coletivo muito profundo. O comércio ficou sem clima."

Ribeiro compara a sensação vivida nos últimos dias à de 2020, na pandemia da Covid-19. "Na quarta-feira [25], era a mesma da pandemia: medo, insegurança, uma tristeza que tirava a energia de abrir as portas e seguir a rotina." Ele decidiu que abrir a loja fisicamente, "com a cidade em estado de choque", seria algo "desrespeitoso diante de tanta dor".

Em Matias Barbosa, que teve todo o seu centro comercial destruído pela cheia do rio Paraibuna, Daniel Ronnier Franco, o Ronninho Gás, 40, viu a enchente levar 350 botijões de gás do Depósito Alô Gás e Água.

"Meu depósito foi destruído. Sei que não vou recuperar." Ainda assim, ele segue otimista. "Estou animado, sim. Em Juiz de Fora, há muitas pessoas que perderam a vida. Sigo de pé, graças a Deus. Vamos seguir."

Em Ubá, que também foi arrasada pelas chuvas, o empresário do setor moveleiro Renan Ferraz, 30, acha cedo para falar em recomeço. "Ainda não estamos na fase de reconstrução. Estamos amenizando os danos causados pela chuva. Isso ainda vai demorar. Agora estamos preocupados em levar comida para as pessoas."

Ele conta que as grandes empresas do setor foram pouco afetadas, mas que, devido aos danos de infraestrutura, está difícil retomar as atividades. "Há dificuldade de locomoção na cidade, e muitos trabalhadores foram atingidos. Vamos ter que aguardar mais."

Por conta do estado de calamidade pública nos municípios, autoridades municipais e representantes de entidades comerciais adotam cautela em relação às projeções de retomada plena das atividades econômicas.

O setor público também enfrenta sérios desafios, principalmente na área da educação, sem previsão de retorno das aulas.

Ao todo, segundo a administração de Juiz de Fora, o município ainda tem mais de 4.200 pessoas desabrigadas ou desalojadas.

A cidade está em estado de calamidade pública desde a última terça-feira.

Moradores de Juiz de Fora chegaram a receber alerta da Defesa Civil sobre o risco dos temporais pouco antes da tragédia.

Thiago Kremers - Reprodução