BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Os dados divulgados pelo governo Lula (PT) sobre educação técnica no ensino médio em 2025 duplicam matrículas e contabilizam estudantes em cursos de qualificação profissional (de menor carga horária), o que resulta em total mais amplo do considerado como educação profissional na contabilidade para as metas do PNE (Plano Nacional de Educação).
Ao levar em conta só o que é monitorado para o PNE pelo próprio governo, o país passou de 2.389.454 de matrículas em 2024 para 2.490.145 no ano passado, segundo o Censo Escolar. Uma alta de 4% no período, menor do que a alta de 5% entre 2023 e 2024.
O PNE em vigor até o ano passado definiu a meta de triplicar em dez anos as matrículas de educação profissional técnica de nível médio. Assim, o país deveria alcançar 5,6 milhões de matrículas desse tipo, considerando as 1,9 milhões de matrículas registradas em 2014.
São levadas em conta para as metas do PNE matrículas no ensino médio integrado ao técnico (agora contabilizadas como "articulado ao itinerário formativo"), em cursos concomitantes (cursado em paralelo ao médio tradicional, na maioria das vezes em outra escola), magistério, subsequente (feito após o ensino médio) e no integrado à Educação de Jovens e Adultos.
Os resultados do Censo Escolar 2025 foram divulgados na quinta-feira (26) pelo MEC (Ministério da Educação). Os dados trazem um panorama da educação básica brasileira e são de responsabilidade do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais).
MATRÍCULAS DE EDUCAÇÃO TÉCNICA COMPUTADAS PELO PNE
Os dados totais, celebrados pelo ministro da Educação, Camilo Santana, mostraram uma alta de 24%. "As matrículas na educação profissional e tecnológica aumentaram de 2,5 milhões para 3,18 milhões", diz documento de divulgação do MEC.
Esses dados, também explorados em reportagem da Folha publicada na quinta (26), contabilizam várias classificações de registros e também matrículas em cursos de qualificação, que podem ser apenas componentes independentes de uma formação técnica mais ampla. Além disso, há duplicidade de matrículas ?algo que é recorrente nas divulgações do Censo Escolar, mas que, segundo integrantes do Inep ouvidos pela reportagem sob anonimato, se intensificou após a reforma do ensino médio.
A reforma do ensino médio, cujas regras de flexibilização do currículo foram criadas em 2017 e alteradas em 2024, prevê a oferta de cinco itinerários formativos: linguagens, ciências humanas, ciências da natureza, matemática e ensino técnico profissionalizante. A previsão é que os alunos escolham qual itinerário seguir, além de cursarem uma parte de matérias comum a todos.
As matrículas no itinerário técnico somaram 1,2 milhão em 2025. No ano anterior, eram 985 mil no curso técnico integrado ao médio.
Para Priscila Cruz, do Movimento Todos pela Educação, é importante desagregar os dados para entender as diferentes ofertas, como a dos itinerários ou de cursos técnicos tradicionais, como ofertados por escolas especializadas, por exemplo.
"Há diferentes profundidades de oferta da educação profissional, e é importante abrir esse tipo de informação para ter debate de quanto a gente quer na modalidade novo ensino médio ou no modelo mais restrito e focado na educação profissional, até para poder fazer distribuição de cursos", diz. "Mas o novo ensino médio tinha de fato o objetivo de expandir a oferta da educação técnica, e isso de fato aconteceu."
O ex-presidente do Conselho Nacional de Educação Luiz Roberto Liza Curi diz que é importante que a ampliação da carga horária do técnico não seja transformada em mero itinerário, mas que conte com infraestrutura e professores qualificados. "A importância da educação profissional é enorme, inclusive ao se considerar que os estudantes que saem dela têm percentualmente maior acesso às universidades, além da questão profissional", diz.
Para ele, é importante considerar os cursos de qualificação como uma etapa da educação técnica, possibilitando que os estudantes possam complementá-la posteriormente.
Até 2024, havia oito classificações de matrículas vinculadas à educação profissional no Censo, sendo três delas vinculadas a cursos de qualificação. Agora, em 2025, são 11, sendo seis delas relacionadas a qualificações.
Além dos 1,2 milhão de matrículas de curso técnico como itinerários formativos, há registro de 517 mil matrículas de qualificação profissional também vinculadas aos itinerários.
Questionado pela Folha, o pesquisador do Inep Fabio Bravin diz que, mesmo antes da reforma do ensino médio, havia a divulgação em separado das matrículas vinculadas ao ensino médio e aquelas que não estavam vinculadas, sendo possível observá-las tanto nas tabulações do ensino médio quanto nas tabulações da educação profissional, e com notas de rodapé informando que não se pode somá-las.
"A estatística é sobre matrículas e não alunos, não há referências a alunos em todo o material de disseminação do Inep", diz Bravin. "Em que pese haver uma correspondência quase direta entre esses dois conceitos, um aluno pode ter mais de uma matrícula, ou seja, não são a mesma coisa".
Ainda há outra forma de contabilizar a evolução da educação técnica do ensino médio, ao levar em conta apenas as matrículas de cursos técnicos integrados (agora pelos itinerários), concomitante e magistérios ?excluindo-se, portanto, os alunos em formações subsequentes (que é de nível médio, mas não ofertada para alunos cursando o ensino médio).
Nesse recorte, o avanço foi de 18% de 2024 a 2025. Também a partir desse cálculo é que se conclui que 21,5% dos alunos de ensino médio do país estão em cursos técnicos, como divulgado pelo MEC na quinta.