SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Morador da rua na Vila Guilherme, zona norte da capital, onde um idoso de 75 anos morreu arrastado pela enxurrada neste verão, Nivaldo de Macedo, 65, mostra a altura que a água chegava durante os alagamentos que presenciou durante toda a infância, ou seja, há mais de 50 anos. "Quando eu era criança, batia aqui, agora está melhor, mas ainda vira um rio quando a chuva é forte", diz ao apontar para o topo do portão.
Ao longo dos anos, a família adaptou a casa para o período de chuvas, quando é certeza que a rua ficará cheia d'água. Uma comporta foi instalada na parte de baixo do portão e a soleira da porta de entrada foi reforçada com cerca de meio metro de concreto. "Aqui enche quando a chuva passa", diz Arlete dos Santos Almeida, 58, mulher de Nivaldo.
A rua Piatã, onde o casal mora, leva o mesmo nome do córrego que passa debaixo da via, integrante da bacia do córrego Carandiru para a qual foram projetadas ao menos seis obras de drenagem em 2024.
Assim como a da rua na zona norte, outras três mortes causadas pelas fortes chuvas desde dezembro na capital paulista ocorreram em locais com histórico de alagamentos e em áreas onde constam estudos com obras projetadas para reduzir riscos de inundação. Nenhuma saiu do papel.
Na segunda-feira de Carnaval (16), uma idosa morreu após ser arrastada pela enxurrada e ficar presa debaixo de um carro em rua perpendicular à avenida Água Fria, onde passam afluentes do córrego Mandaqui. O projeto para a bacia data de 2016 e indica três reservatórios e um parque linear para conter as cheias. A obra nunca foi feita.
A rua onde ocorreu a morte alaga há mais de 50 anos, segundo relatos de moradores, como Edna Rocha, 79, que vive no bairro há mais de quatro décadas. "Quando começa a chover eu me tranco em casa, a rua vira um rio", diz ela, que mora a poucos metros de onde ocorreu a morte. "Aqui sempre alagou e, com o passar dos anos, a força da água é cada vez maior."
Os projetos que listam as obras necessárias para reduzir o risco de alagamentos recebem o nome técnico de Cadernos de Drenagem das Bacias Hidrográficas e são contratados pela administração municipal para nortear o plano de execução dessas intervenções.
Outro mecanismo que funciona como referência técnica para a gestão das águas pluviais do município é o Plano Diretor de Drenagem. A versão mais recente, publicada em 2024, listou três reservatórios na bacia do Mandaqui entre as obras prioritárias com base em um ranking que leva em conta critérios como custo de implantação, população residente na área de inundação, entre outros. Nenhuma intervenção foi iniciada.
Questionada, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que o Plano Diretor de Drenagem (PDD) está em andamento e segue cronograma de execução de projetos e obras até 2040. Em relação às obras não executadas na zona norte, a gestão informou que há intervenções previstas na próxima edição do plano, a ser publicada em breve, e a construção de um piscinão da Vila Aurora está com edital em elaboração.
Segundo a prefeitura, a região norte recebeu quatro piscinões e há previsão de entrega de mais um neste ano. Nenhum desses cinco reservatórios, porém, está nas bacias onde ocorreram as mortes.
Com nove reservatórios entregues, a gestão Nunes disse que foram investidos R$ 9,3 bilhões no sistema de drenagem da cidade desde 2021, "mais que o dobro do aplicado pelas gestões anteriores entre 2011 e 2020".
Previsto para ser entregue no ano passado, o piscinão da avenida Ellis Maas, no Capão Redondo, na zona sul, está atrasado. Projetado para conter as cheias da bacia hidrográfica do córrego Morro do S, o reservatório teve as obras iniciadas em julho de 2022.
Um casal de idosos morreu em janeiro após o carro onde estavam ter sido arrastado pela enxurrada durante temporal na avenida Carlos Caldeira Filho, no Campo Limpo, após transbordamento do córrego do Morro do S. A bacia tem ao menos mais cinco obras de drenagem projetadas desde 2016, quando o Caderno de Drenagem correspondente foi concluído.
A gestão Nunes disse que a entrega do reservatório foi adiada para 2026 por causa das rochas identificadas no fundo da estrutura, que foram desmontadas sem uso de explosivos para evitar impactos na vizinhança. A administração afirmou ainda que a gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) não iniciou as obras em 2016, quando foi emitida ordem para que isso acontecesse. Procurada, a equipe do atual ministro da Fazenda afirmou que Nunes "quer reviver 11 anos atrás".
Blocos de concreto foram instalados na avenida após a morte dos idosos "como medida de proteção", segundo a prefeitura.
Para Fernando Dornelles, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade do Rio Grande do Sul, as mortes ocorreram em decorrência direta da força das águas -por isso, poderiam ter sido evitadas se as obras previstas tivessem sido executadas. "As vazões teriam sido menores", diz. "As bacias de detenção [piscinões], apesar de não controlarem a vazão, têm impacto na redução de alagamentos quando ocorrem chuvas maiores."
Ele explica que os estudos das bacias em consonância com a previsão das obras foram implementados a partir dos anos 1990 para evitar que medidas isoladas de combate a cheias impactassem a jusante dos córregos e rios, parte mais baixa das cidades onde pode ocorrer acúmulo de água da chuva. "O plano, por si só, não contrata as obras, é preciso atuação do poder municipal e estadual", diz. "Talvez o que falte seja a hierarquização das bacias", continua, ao sugerir prioridade a obras em regiões mais problemáticas em termos de alagamentos. A ocorrência de mortes é um critério que pesa nessa seleção, segundo o professor.
Além dos reservatórios, existem propostas de atrelar as obras à chamada infraestrutura verde, com a instalação de jardins de chuva e biovaletas. Aumentar a permeabilidade do solo é uma forma de a água ser absorvida em vez de escoar como acontece em asfalto e concreto. "As enxurradas são resultado direto do aceleramento das águas, é preciso diminuir a velocidade para evitar estragos", diz Paulo Pellegrino, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo).
A ideia faz parte do conceito de cidades-esponjas, criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, morto em setembro do ano passado em acidente aéreo durante viagem ao pantanal. "No passado, as obras aceleraram as águas, os rios perderam a sinuosidade e se investiu em canalização com uso de concreto. Temos que fazer as pazes com a água", continua Pellegrino.