SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A imagem de Santa Bárbara (padroeira da geociência) próxima à boca do enorme poço com cerca de 30 metros de profundidade testemunha a delicada abertura de um túnel sob a avenida Paulista, no cruzamento com a rua da Consolação, emblemática esquina da cidade de São Paulo, cuja obra vai entrar nos próximos dias em sua parte mais crítica.
Com 75% de escavações concluídas, a ligação para pedestres entre as estações Consolação (da linha 2-verde) e Paulista (linha 4-amarela), do metrô, tem previsão para ficar pronta até o fim do ano -as obras foram iniciadas em 2023 e devem custar R$ 60,9 milhões.
Em março começa a preparação para o corte de cinco estacas de fundações do edifício técnico da estação Paulista para o avanço do túnel, cuja capacidade será para circulação de 18 mil pessoas por hora.
Nesta próxima fase, explica a líder de projeto Andréia Cristina Rodrigues, será realizado o que os engenheiros chamam de transferência de carga. Ou seja, o Metrô vai construir uma estrutura subterrânea para sustentar a intervenção.
"Vamos alargar o poço para fazer a estrutura e, posteriormente, o corte das estacas", diz.
O reforço estrutural formará um pórtico de concreto para a redistribuição da carga dessas fundações, permitindo o corte das estruturas do edifício. O processo deve durar cerca de três meses.
Esse trecho mais delicado da obra, na chegada à estação da linha 4-amarela, tem cerca de 20 metros.
Ao todo, o túnel conta com aproximadamente 90 metros de comprimento, 7,5 metros de largura e 5,5 metros de altura.
O lado norte, onde fica a estação da linha 4 (na Consolação), é considerado uma obra especial pela proximidade com fundações profundas de edifícios -incluindo imóveis tombados, como o Cine Belas Artes, e prédios da década de 1950. Além disso, na Paulista há um edifício com janelões colados à construção
Por isso, esse trecho da obra passa por um conjunto de tratamentos estruturais para dar segurança à escavação.
Atualmente, está em execução o sétimo, de nove desses tratamentos com técnicas de engenharia que consistem na colocação de tubos de reforço, com injeção de calda de cimento sob alta pressão, formando um arco de sustentação temporário. Será feita também a instalação de barras de fibra de vidro para estabilizar a face de escavação.
"Esse tratamento dá suporte para seguir com segurança, tanto para os colaboradores da frente do serviço quanto para a obra em si", afirma a líder do projeto. "Lembrando que estamos debaixo de vários edifícios e o risco sempre existe."
O processo de escavação inclui a montagem de 96 cambotas -atualmente a obra tem 72 concluídas- e preenchimento com concreto projetado, que formam a estrutura em arco que molda o túnel. Cada ciclo pode durar de 15 a 20 dias.
O corte das estacas está previsto para a cambota de número 77.
O túnel é construído pela técnica NATM (novo método austríaco de tunelamento, na tradução), em que a escavação é feita de forma sequencial -o maciço rochoso é o suporte principal da obra, com reforço de concreto projetado, cambotas metálicas e chumbadores.
A Folha Paulo acompanhou as obras do túnel no último dia 19 -pela primeira vez uma equipe de reportagem desceu os 30 metros até o local. Quando pronto, a profundidade vai variar de 20 metros a 25 metros.
Havia trechos com poças d'água e chão embarreado, como em obras de túneis. Funcionários trabalhavam no tratamento estrutural.
Ao todo, 70 pessoas atuam diretamente e indiretamente na construção.
A escavação sul, que vai do poço até a estação Consolação (que fica na Paulista), está pronta. Faltam revestimento e estruturas internas, além de perfurar a parede para acesso às plataformas.
A cerca de um metro do teto do túnel no lado sul passam os trilhos da linha 2-verde, sentido Vila Madalena, diz Andreia. Mesmo assim, durante o período em que a reportagem permaneceu lá embaixo não houve nenhum tremor ou barulho de trens, apenas de obra.
Após a conclusão, serão executados o revestimento secundário completo (está com 20,6% concluído), a laje de piso, instalações elétricas, hidráulicas, ventilação e acabamentos, além da abertura final para conexão com as estações.
O Metrô explica que a nova passagem terá capacidade para receber 18 mil pessoas por hora, distribuindo o fluxo e proporcionando uma conexão com mais espaço para circulação.
A ideia é que ele seja utilizado para as pessoas que seguem da estação Consolação para a Paulista e assim liberar a atual ligação para ser usada apenas para quem segue no sentido oposto -o percurso existente hoje acabou apelidado de "marcha dos pinguins" pelos usuários, devido ao pouco espaço para o alto fluxo de pessoas.
Localizada em uma das áreas mais movimentadas da cidade, o Metrô afirma que a obra exige logística especial devido ao espaço restrito para passagem de caminhões e guindastes.
Tapumes dificultam a circulação de veículos e pedestres no trecho da Paulista entre as ruas da Consolação e Bela Cintra.
O poço por onde hoje descem e são retirados os equipamentos da obra, inclusive pequenos tratores, servirá no futuro para ventilação e exaustão do local.
Segundo o Metrô e a concessionária ViaQuatro, em média, passam pelas estações Consolação e Paulista cerca de 100 mil e 93,2 mil pessoas, respectivamente.
Ao todo, até o dia que a Folha foi ao local, haviam sido removidos 5.139,5 m³ de terra, além da aplicação de 1.199,97 m³ de concreto e 53 toneladas de aço.