BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - O aumento da temperatura provocado pelas mudanças climáticas e pelo impacto de variáveis naturais sobre o clima elevou em até 15% a intensidade das chuvas como as que atingiram a zona da mata de Minas Gerais nesta semana, deixando mais de 60 mortos.

A comparação, feita por cientistas de diferentes nacionalidades vinculados à iniciativa ClimaMeter, é com as ocorrências de chuva que foram registradas na região nos anos 1950-1987.

ClimaMeter é uma plataforma desenvolvida pela equipe do laboratório de ciências do clima e do ambiente na Universidade Paris-Saclay, na França. O projeto é experimental e se propõe a analisar, de forma ágil, eventos extremos logo após as ocorrências.

Análise semelhante foi feita pelo instituto sobre as chuvas no Rio Grande do Sul, em 2024.

Entre os autores do levantamento está a brasileira Suzana Camargo, professora e pesquisadora da Universidade de Columbia.

Ela afirma que a maior intensidade das chuvas não pode ser atribuída apenas às mudanças climáticas, apesar de sua influência nesse tipo de fenômeno ser cada vez maior na comparação com os fatores naturais.

Um desses fatores naturais é a oscilação decadal do Pacífico, uma oscilação natural da temperatura da superfície do oceano Pacífico que muda de fase a cada duas ou três décadas e pode influenciar padrões de chuva na América do Sul.

"A gente vê que aumentou a probabilidade desse evento [fortes chuvas] acontecer por causa da mudança climática quando compara o que acontece agora com um período mais anterior, nos anos 1950, 60, 70", diz a pesquisadora à Folha de S.Paulo.

O estudo também identificou que a temperatura aumentou cerca de 0,8°C a 1,5°C na região da zona da mata durante essas situações meteorológicas, em mais um sinal da influência do aquecimento global provocado por mudanças do clima.

Também são autores do levantamento Davide Faranda, Haosu Tang, Neven Fu?kar e Tommaso Alberti.

"Nossos resultados confirmam o que cientistas do clima alertam há anos: sob o nível atual de aquecimento, Minas Gerais está se tornando cada vez mais propensa a enchentes catastróficas. Nossa análise mostra que padrões meteorológicos que antes produziam chuva moderada agora geram precipitação substancialmente mais intensa, aumentando seu potencial destrutivo", disse Faranda, em comunicado.

A pesquisadora brasileira afirma que ocorrências dessa natureza devem se intensificar nos próximos anos nas regiões sudeste e sul do país.

"Pela literatura da mudança climática, a gente projeta que aconteçam mais desses eventos extremos, raros, e que a magnitude desses eventos também vai aumentar", afirma Camargo.

A professora ainda afirma que as conclusões servem como alerta para que as cidades brasileiras se adaptem à nova realidade.

"A infraestrutura local tem que estar preparada quando se pensa em construção, em relação a deslizamentos, porque esses eventos vão acontecer mais frequentemente".

Além dos fatores climáticos, a pesquisa também cita o efeito de outros fatores não avaliados, como exposição costeira, urbanização em áreas de baixa altitude e vulnerabilidade social, o que influencia a magnitude dos impactos constatados.

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