SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O grupo de agentes suspeitos de integrar um esquema de corrupção na Polícia Civil de São Paulo atuou para embaraçar o andamento de investigações, interveio em casos com a intenção de destruir provas e chegou a receber propina no hangar da corporação no Campo de Marte, segundo a investigação.
Eles foram alvo de uma operação conjunta do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) e da PF (Polícia Federal) nesta quinta-feira (5) que cumpriu 11 mandados de prisão e impôs medidas cautelares a outras seis pessoas.
Entre os alvos estão quatro policiais civis ?dois investigadores, um delegado e um escrivão?, um advogado e dois antigos conhecidos da operação Lava Jato, a contadora Meire Poza e o doleiro Leonardo Meirelles, que atuavam na estrutura financeira do doleiro Alberto Youssef.
A SSP (Secretaria de Segurança Pública) de São Paulo declarou em nota que "a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades".
Afirmou também que "determinou nesta quinta a realização de rigorosas apurações administrativas em todas as unidades onde foram cumpridos mandados de busca e apreensão relacionados à Operação Bazaar, conduzida pelo Ministério Público em conjunto com a Polícia Federal e com a Corregedoria Geral da própria Polícia Civil".
A Corregedoria da corporação auxiliou nas investigações e também fará uma correição extraordinária nos atos praticados pelos agentes nas unidades por onde eles passaram. As diligências, segundo a SSP, começaram pelo 35º Distrito Policial, na região do Jabaquara, zona sul da capital.
Os policiais entraram na mira das investigações porque inquéritos contra um grupo suspeito de lavagem de dinheiro e evasão de capitais ou não saíam do papel ou não tinham andamento. Policiais responsáveis por essas investigações, segundo o MP-SP e a PF, na verdade recebiam para que casos não avançassem.
Para a Justiça, por sua vez, ficou "demonstrada a possibilidade de intervenção indevida nas investigações, com indícios de uma possível destruição de provas materiais, orquestração para a construção de versões inverídicas, alinhamento de versões entre os investigados e criação de álibis falsos".
O esquema teria começado ainda em 2022. Na época, segundo o MP-SP, integrantes da organização combinaram com policiais cooptados a troca de um HD apreendido numa operação que investigou lavagem de dinheiro.
A manobra se deu, segundo a investigação, por intermédio do advogado Marlon Antonio Fontana, um dos presos nesta quinta-feira e apontado como intermediário do grupo junto a policiais. Em outro caso, mensagens extraídas do celular dele mostram orientações para investigados pagarem R$ 30 mil em propina a agentes da corporação.
A Folha de S.Paulo tenta localizar a defesa de Fontana, que em processos anteriores atuou em causa própria.
PROPINA EM HANGAR
Um outro intermediário entre a organização criminosa e a Polícia Civil era o policial Rogério Coichev Teixeira, integrante de uma unidade de elite da corporação em São Paulo e também preso nesta quinta-feira.
Mensagens interceptadas pelas investigações revelaram que um dos integrantes da organização tratava Coichev como "irmão".
Em uma das ocasiões, segundo o MP-SP, ele recebeu R$ 50 mil em espécie no hangar da Polícia Civil no Campo de Marte, em São Paulo.
Em outra, quando obteve R$ 40 mil em vez do valor cheio, perguntou ao terceiro se a diferença seria paga no dia seguinte porque "ficou de levar o dinheiro 'para os meninos', referindo-se aos demais agentes que deveriam receber a vantagem indevida".
'INVESTIGAÇÕES DE GAVETA'
O inquérito menciona também "investigações de gaveta" promovidas pelo 16º Distrito Policial, o da Vila Clementino, envolvendo o delegado João Eduardo da Silva e um escrivão. Ambos foram presos na operação desta quinta. A reportagem tenta localizar a defesa deles.
Segundo o Ministério Público, Silva determinou ainda em 2022 a instauração de um inquérito para investigar crimes de extorsão em tese praticados pela organização alvo das operações por lavagem de dinheiro e evasão de capitais.
Durante as investigações, por sua vez, pediu ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) relatórios de inteligência sobre movimentações financeiras de empresas ligadas ao grupo. Os documentos, porém, nunca foram juntados ao inquérito.
Para o MP-SP, os relatórios serviram como instrumento de pressão para aumentar a probabilidade de se receber vantagens indevidas. Foram R$ 100 mil acertados.
O intermediário para essa operação, o advogado Guilherme Sacomano Nasser, chegou a se referir ao delegado como seu "parceiraço" segundo as investigações. A Folha de S.Paulo localizou Nasser. Ele disse à reportagem que se manifestaria nesta tarde.