SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - No coração do deserto da Austrália existe uma cidade onde boa parte da vida acontece longe do sol escaldante.
Em Coober Pedy, no estado da Austrália do Sul, o calor extremo levou muitos moradores a adotarem um estilo de vida incomum: viver no subsolo. As temperaturas na região podem ultrapassar facilmente os 50 °C durante o verão, o que torna as casas subterrâneas uma alternativa mais confortável para enfrentar o clima.
Cerca de metade ou até 60% da população vive em moradias escavadas na rocha, chamadas localmente de dugouts. Essas casas ficam vários metros abaixo da superfície e ajudam a manter a temperatura estável mesmo quando o calor do deserto se torna quase insuportável.
Dentro dessas casas, hotéis e restaurantes escavados na rocha, a temperatura costuma permanecer próxima de 23 °C durante todo o ano. Segundo informações da Nasa, o subsolo permite um controle climático eficiente e de baixo consumo de energia por meio do resfriamento passivo. Esse efeito acontece porque a terra e as rochas funcionam como uma grande massa térmica, absorvendo e liberando calor lentamente.
UMA CIDADE NASCIDA DA OPALA
A cidade surgiu graças à mineração de opalas, pedras preciosas conhecidas pelos reflexos coloridos. O nome Coober Pedy surgiu em 1920 e tem origem em uma expressão aborígene que significa "homem branco em um buraco".
A região se tornou um dos principais centros de mineração da gema, formada há milhões de anos quando sílica dissolvida em águas subterrâneas se depositou nas fissuras das rochas. Com o passar do tempo, antigos túneis de mineração foram adaptados para moradia, dando origem ao estilo de vida subterrâneo que marca a cidade até hoje.
COMO FUNCIONA A VIDA DEBAIXO DA TERRA
Hoje, além das casas, existem igrejas, hotéis, bares e até livrarias subterrâneas. Reportagem da BBC observa que, no verão, viver abaixo da terra faz todo sentido em um lugar onde o calor é extremo. A publicação lembra que a cidade "atinge regularmente 52 °C, tão quente que pássaros já foram vistos caindo do céu".
Para garantir ventilação, tubos conectam os ambientes subterrâneos à superfície. O clima seco do deserto também ajuda a evitar problemas de umidade, permitindo que moradores ampliem suas casas escavando novos cômodos conforme a necessidade.
O estilo de vida subterrâneo também chama atenção por seu silêncio e conforto. Em reportagem do jornal britânico The Sun, uma moradora descreveu a experiência de viver nesses ambientes. "Não existe barulho externo. Quando você fecha a porta, tudo desaparece. Fica completamente escuro e silencioso, perfeito para dormir", afirmou Sabrina Troisi, que vive na cidade com a família.
Além do conforto térmico, as casas subterrâneas ajudam a reduzir gastos com energia. Especialistas citados pela ABC Austrália explicam que construções cobertas pela terra têm enorme capacidade de manter a temperatura estável.
"Quando um edifício é coberto pela terra ou está no subsolo, você obtém uma massa térmica praticamente infinita", disse o pesquisador Stephen Berry. Segundo ele, isso faz com que "as condições internas permaneçam notavelmente estáveis".
Curiosidade que atrai turistas. Mesmo com o isolamento no deserto australiano, Coober Pedy se tornou um destino turístico curioso. Visitantes podem conhecer hotéis subterrâneos, explorar antigas minas de opala e até jogar golfe em um campo sem grama, adaptado ao clima seco da região.