SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A estudante Laila Duarte, 19, tinha dois planos claros quando começou a se preparar para o vestibular. Queria cursar medicina e fazer isso em uma universidade federal. Conseguiu os dois. A aprovação veio pelo Sisu, a seleção unificada federal, para a UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), mas a vaga ficava em Santo Antônio de Jesus, a mais de 190 km de Salvador, onde mora.
Ao mesmo tempo, ela obteve uma bolsa integral pelo Prouni na Unifacs (Universidade de Salvador), faculdade particular a apenas seis minutos de ônibus de casa. Diante da dúvida, decidiu permanecer na cidade, perto da família e com melhores condições de vida.
"Fiquei com medo de fazer uma má escolha, porque... Poxa, federal sempre foi meu sonho", disse ela. Apesar da gratuidade, o custo de moradia e alimentação pesou. "Medicina não tem como trabalhar. É o dia todo. Minha família teria que dar conta disso. Isso me chateou muito."
No Sisu, a primeira opção de Laila era a UFBA (Universidade Federal da Bahia), também em Salvador. Ela chegou a ser aprovada para medicina, mas entraves burocráticos na comprovação de documentos de cota impediram a matrícula. Foi então que a vaga na UFRB se tornou a alternativa pública disponível.
A escolha de Laila pode parecer surpreendente, mas está longe de ser isolada, segundo especialistas ouvidos pela reportagem. Para eles, a expansão de vagas em cursos de medicina na rede privada reduziu o custo simbólico de abrir mão de uma universidade pública.
Segundo o consultor em ensino superior João Vianney, sócio da Hoper Educação, a entrada de grandes hospitais no ensino médico mudou o cenário. Instituições privadas ligadas a estruturas hospitalares de alta complexidade passaram a disputar alunos com as federais.
De acordo com o Censo do Ensino Superior, as vagas em medicina na rede privada saltaram de 28 mil em 2019 para quase 42 mil em 2024, crescimento de 49% em cinco anos. No mesmo período, as instituições públicas saíram de 11,5 mil para 13,7 mil vagas, expansão de 19%.
Em relação ao número de candidatos por vaga, particulares tiveram ligeiro aumento de 2023 a 2024, enquanto nas públicas o movimento foi contrário.
"Dentro da medicina, a entrada dos hospitais na formação médica mudou o jogo. Uma graduação do Einstein ou do Sírio-Libanês rapidamente agrega um patamar de qualidade extremamente elevado", afirma Vianney.
A mudança também passa por uma geração que coloca saúde mental e proximidade familiar acima do prestígio institucional. De acordo com a professora Rosana Heringer, da Faculdade de Educação da UFRJ e especialista em ensino superior, esse movimento se tornou mais visível após a pandemia. "Muitos estudantes começaram a ter muito mais dificuldades de lidar com situações de pressão", disse ela.
A pesquisadora estuda desigualdades no acesso à universidade e observa como contextos sociais no Brasil moldam essas escolhas de formas nem sempre óbvias. Segundo ela, tornou-se recorrente entre setores das classes mais altas justificar a preferência pela rede privada com argumentos ligados à rotina universitária, como greves e instabilidade administrativa.
Não é o caso de Laila. Aluna de escola pública, ela só conseguiu competir por uma vaga em medicina graças ao Projeto Gaus, ONG de São Paulo que financia e apoia estudantes da rede pública em cursinhos pré-vestibulares de alto desempenho. Foi pelo programa que ela estudou no Colégio Bernoulli em Salvador.
Quando questionada se trocaria a Unifacs por outra federal, ela é direta. Só voltaria atrás pela federal da Bahia. "A UFBA, pra quem é aqui do estado, é um sonho. É a ?mais mais?", disse.
No caso de medicina, Vianney diz que a nota do Enamed (novo exame do MEC que avalia cursos de medicina) também pode começar a pesar na escolha das universidades. Para Laila, o resultado da prova, divulgado em janeiro, foi importante para decidir qual particular de Salvador iria prestar pelo Prouni
DISTINÇÃO SOCIAL NO ENSINO SUPERIOR
A discussão entre universidade federal x universidade particular "bombou" nas redes sociais em fevereiro, quando viralizou um vídeo de Tulianne Maravilha, filha do ex-jogador de futebol Túlio Maravilha. Ela contou que recusou vagas na UFRJ, em nutrição, e na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em odontologia, para cursar o ensino superior em uma instituição privada.
No vídeo, a família argumenta que a escolha por uma instituição privada ajudaria a "manter os valores familiares". Segundo a jovem, os pais também consideram que a faculdade particular estaria mais alinhada às convicções da casa, além de oferecer maior sensação de segurança, facilitar a logística do dia a dia e permitir que ela permaneça perto de casa.
Para Heringer, o episódio repercutiu por tornar público o que costuma ficar restrito a conversas privadas. Ela cita o caso de famílias que recusam vagas em federais porque não querem que os filhos atravessem a Linha Vermelha do Rio de Janeiro para chegar ao campus, mesmo se tratando de uma universidade pública e gratuita.
Além disso, a pesquisadora diz que casos como esse também dialogam com um fenômeno mais amplo. À medida que o acesso às universidades públicas se torna mais diverso, grupos antes privilegiados passam a buscar novas formas de distinção social, e a preferência por determinadas instituições privadas -ou até mesmo por estudar no exterior- pode funcionar como um desses marcadores.
Em agosto, a Folha de S. Paulo mostrou que, com restrições migratórias e incertezas para estudar nos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump, parte de estudantes brasileiros que planejava estudar fora passou a considerar universidades privadas de prestígio como alternativa. Instituições como FGV e ESPM relataram aumento na procura em seus processos seletivos por esse público.
No caso da medicina, a rápida expansão das faculdades privadas também alterou a dinâmica do mercado. Para Vianney, o país já vive um cenário de superoferta de vagas, especialmente em cidades médias e pequenas. "Isso acaba pressionando os preços e reduzindo o valor das mensalidades em algumas regiões", afirma.
Segundo ele, o avanço de programas de crédito educativo, como o Fies, também facilita a decisão de estudar na rede privada. "Para uma família de classe média hoje, dá para manter um filho na medicina privada no interior pagando parte da mensalidade e financiando a outra metade."