SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Faz um século que meninos estudam em uma escola de São Paulo de terno e gravata, e meninas, de camisa, vestido ou saia de prega xadrez. O uniforme da tradicional escola britânica localizada no Jardim Paulistano, a St. Paul?s, que acaba de completar 100 anos, mudou muito pouco desde 1926.
A escola, que já recebeu a rainha Elizabeth 2ª, o então príncipe Charles e a princesa Diana, está entre as mais caras do Brasil, com taxa de adesão de até R$ 65 mil e mensalidades que ultrapassam R$ 14 mil. Curiosamente, uma pesquisa feita para o centenário revela que o estatuto de fundação determinou que as taxas cobradas dos alunos deveriam ser fixadas "o mais moderadamente possível".
A pesquisa vasculhou cerca de mil caixas com documentos antigos e entrevistou ex-alunos e ex-funcionários. A memória da St. Paul's e sua relação com a história da imigração britânica e da urbanização de São Paulo foram compiladas em um livro de capa dura em inglês (língua usada na St. Paul?s), à venda na escola por R$ 390.
A St. Paul?s surgiu em meio à efervescência de empresas do império britânico no Brasil, como a São Paulo Railway (primeira ferrovia do estado), a Light (companhia de bondes, luz e força de SP) e a loja Mappin. Ferro fundido e aço produzidos na Inglaterra eram usados em marcos da arquitetura paulistana, prédios com grandes estruturas metálicas, como o Mercado Municipal e a Estação da Luz.
O livro rememora como os ingleses tiveram influência na criação de bairros planejados de São Paulo para as elites, por meio da Companhia City. Seguindo o modelo de "bairros-jardins" londrinos ?ruas curvas e arborizadas, praças, lotes grandes e casas com recuo obrigatório?, surgiu o Jardim América. Depois dele, vieram outros, como o Jardim Europa e o Jardim Paulistano ?foi neste último que a St. Paul?s foi construída, em um terreno na rua Juquiá, onde funciona até hoje.
O casarão foi projetado com a preocupação de amenizar o calor: 38 janelões frontais, salas amplas e corredores largos para facilitar a entrada de luz natural e a circulação de ar. A escola começou a funcionar nesse endereço em 1928. Antes, tivera como sede uma pequena casa alugada na rua Tamandaré, na Aclimação.
À época, britânicos fundaram clubes no Brasil para praticar esportes como críquete, rúgbi e tênis. Membro de um deles, Charles Miller (1874-1953), descendente de famílias britânicas, foi estudar na Inglaterra e lá conheceu o futebol. Em 1894 voltou ao Brasil com duas bolas, uma bomba de ar, um livro de regras e duas camisas de time. Realizou, em 1895, o primeiro jogo de futebol do país, entre empresas britânicas.
No mesmo SPAC (Clube Atlético de São Paulo), em 1922, um padre anglicano inglês começou a dar aulas para os filhos dos sócios. E foi ele, Humprey Tudor Morrey-Jones, que convenceu famílias e empresas britânicas a financiar a fundação da St. Paul?s.
Apesar da origem anglicana, a escola foi definida no estatuto de fundação como "aberta a estudantes de todas as religiões, devendo a instrução religiosa ser ministrada de acordo com a vontade dos pais". Era uma visão moderna para um tempo em que as elites costumavam estudar em colégios religiosos.
A historiadora Soraya Moura, que participou da pesquisa, avalia que, além de moderna, essa era uma visão pragmática dos fundadores. "Eram homens de negócio e sabiam que estavam vindo para o Brasil pessoas de várias religiões. Queriam uma escola que acolhesse os britânicos, mas estavam abertos", afirma.
O pragmatismo ajuda a explicar o fato de a escola ter se tornado mista, com meninas e meninos juntos nas turmas, enquanto o comum na época era ter salas separadas. Documentos mostram que, em vários momentos, discutiu-se a junção para reduzir os custos ?com a separação, era preciso manter o dobro da estrutura.
"A partir de 1967, as turmas se tornaram definitivamente mistas. Antes, em diferentes ocasiões, a St. Paul?s ora juntava meninos e meninas em mais ou menos aulas, ora separava-os por completo", diz.
Um relatório de 1937 fala do sistema de classes separadas como "obviamente caro". Na década de 1930, a escola fez empréstimos para cobrir custos e realizar melhorias, entre elas a construção de uma piscina e de quadras de tênis ?estas se tornaram atração para quem passava pela rua e ficava assistindo aos alunos praticarem aquele esporte até então praticamente desconhecido no Brasil.
Uma foto da década de 1940 é considerada um "mistério" do centenário. Em meio a uma sala lotada de meninos, está, na primeira carteira, uma garota. "Não conseguimos descobrir por que ela está nessa sala", diz Soraya.
Atrás dela estava William Anderson. Hoje com 86 anos, o economista disse à Folha ter muitas recordações da St. Paul's, mas não daquele momento.
"Eu me lembro das aulas de artes, da piscina, de praticar esportes. Jogava dardo, fazia corrida e era ponta esquerda no futebol."
Escocês, o pai de William, que havia sido um dos primeiros alunos da St. Paul?s, se tornou voluntário na Segunda Guerra, estimulado pelo patrão, e morreu em combate. "O patrão ficou com remorso e se ofereceu para pagar meus estudos", conta William, que depois colocaria os dois filhos na escola.
Embora aborde as dificuldades financeiras que a escola enfrentou, o livro não fala da evolução das mensalidades. Soraya lembra que a St. Paul?s começou para uma elite ainda muito restrita (com 77 alunos em 1926). "Hoje são 1.200, com lista de espera para matrículas. Foi uma demanda criada pela elite na educação."
Diretor da St. Paul?s, Titus Edge diz que houve "transformação significativa" no perfil dos alunos, antes majoritariamente britânicos. "Havia a predominância de estudantes de comunidades expatriadas ou de famílias com vínculos com empresas e instituições estrangeiras." Hoje, entre famílias brasileiras e internacionais, são 30 nacionalidades.
Ele cita o programa de bolsas para alunos "com forte potencial acadêmico" (a seleção é aberta a escolas públicas e privadas). "O programa reflete a filosofia da St. Paul?s de que a diversidade de experiências e perspectivas fortalece o ambiente de aprendizagem." São 50 alunos, dentre os cerca de 1.200.
Titus dará lugar a Martina Oparaocha em agosto. Em um século, só uma mulher havia dirigido a escola (anos 2010). Martina será a segunda. E a primeira negra.