SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - A remoção do navio histórico Professor W. Besnard, que ficou parcialmente submerso e tombado no porto de Santos na última sexta-feira (13), na região do Parque Valongo, ainda provoca dúvidas sobre possíveis impactos ambientais e até mesmo o futuro da embarcação.
A consultora ambiental Ana Angélica Alabarce, ex-chefe do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais) em Santos, aponta o risco iminente de vazamento de óleo no estuário.
"Enquanto esteve em operação, até o fim de 2022, alertamos por anos aos responsáveis que era necessário retirá-lo do mar antes que acarretasse prejuízos maiores, como esse. Em 2020, foi gasto um alto valor para que não fosse a naufrágio e, depois, não se fez mais nada a respeito. Ainda há lugares dentro da embarcação que são de difícil acesso e contêm grandes quantidades de óleo", disse ela à reportagem.
A Autoridade Portuária de Santos diz estar tomando medidas emergenciais para a reflutuação do navio, com o objetivo de deslocar o mesmo para um estaleiro e avaliar a possibilidade de recuperação. Haverá ainda uma licitação para contratar a empresa que realizará a atividade.
Em 2020, o Professor W. Besnard viveu situação parecida com a atual, que também provocou um adernamento -termo técnico utilizado quando há inclinação lateral de um barco.
Na ocasião, uma operação retirou aproximadamente 130 mil litros de água e 18 mil litros de resíduos oleosos que alagavam a embarcação. Desde então, o navio se manteve em contínua deterioração e foi alvo de diversos furtos.
"O navio sempre foi muito saqueado. Já roubaram as escotilhas, os cabos e até a forração da parte interna. Nos faltam recursos, mas acredito que há males que vêm para o bem. Ele agora receberá a atenção que precisa", explica o engenheiro civil Antônio Carlos da Mata Barreto, idealizador do Museu do Porto e colaborador do Instituto do Mar (Imar), responsável pela embarcação.
O problema que ganhou repercussão nos últimos dias foi ocasionado pelo acúmulo de água das chuvas na última sexta-feira. Mas só aconteceu por conta da impossibilidade de acionamento de uma bomba externa de sucção, que estava ligada a cabos de energia furtados em um ponto de luz cedido pela Prefeitura de Santos.
"Ele já deveria ter sido içado há muito tempo, mas isso não foi feito. Agora, a operação ficou muito mais cara e complexa. A água traz peso e dificultará a remoção, além dos riscos", disse Ana Angélica.
O processo de salvatagem não é simples e deve passar por etapas como a vedação de furos e pontos onde há entrada de água, além de bombeamento para saída de água e o nivelamento do navio. Só então a embarcação poderá ser içada.
O navio, que tem 49,3 metros de comprimento, realizou uma série de expedições para a formação de pesquisadores e coleta de material científico, sendo um dos pioneiros em pesquisas brasileiras na Antártida. Desde 2008, após sofrer um incêndio, encontra-se inoperante.
A embarcação pertencia ao Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo). Posteriormente, foi doada a Ilhabela, que pretendia afundá-la para transformá-la em um recife artificial. Em 2019, a prefeitura da cidade do litoral norte repassou o navio ao Imar, que afirmava ser possível recuperá-lo.
O plano do Imar e de entusiastas agora é transformar o Professor W. Besnard em um museu, preferencialmente itinerante. O projeto, contudo, ainda é incerto.
"Entendemos o navio como um ativo turístico e cultural, mas será necessário saber se pode ser aproveitado. Depois, dialogar e apresentar esse projeto com incentivo da Lei Rouanet. Por fim, buscar apoio de empresas do setor privado. Temos o Museu do Café, que também é administrado por um instituto ligado ao setor e serve como um modelo interessante", diz Sérgio França Coelho, CEO do Fórum Brasil de Turismo Cultural.
"Se for recuperado, o nosso sonho é transformá-lo em um museu itinerante. Pelos impactos que sofreu com o gelo nas expedições e pelas deteriorações na chaparia, não sei se conseguiremos. Mas só de o transformarmos em um museu, seja em terra ou posicionado na água, já será uma vitória. Resgataremos algo que estava sucateado", afirma Mata Barreto.
A Prefeitura de Santos diz que, apesar de o navio estar atracado no cais do Valongo, não tem responsabilidade ou obrigações sobre ele, mas que colaborou com o fornecimento de energia e se dispôs a religar a transmissão interrompida. Afirma também que a segurança da embarcação é de responsabilidade do Imar.