SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O estado do Rio de Janeiro atravessa uma decadência lenta e persistente, visível em quase todos os seus serviços públicos e na economia. Na raiz está a degradação da segurança pública e a simbiose entre as forças policiais e o crime organizado. Sem mudar isso, dificilmente o estado se recuperará.
Essa é a premissa central de um rigoroso trabalho de alguns dos melhores especialistas do país nas áreas de segurança, social e economia reunidos no livro "Um renascer para o Rio ? Propostas para um estado próspero e sustentável".
Os autores esquadrinham de forma técnica diagnósticos e estratégias para enfrentar o que chamam de "inimigo interno": a corrupção sistêmica e o esgotamento de um modelo de desenvolvimento fragmentado e dependente do petróleo.
O epicentro da crise é a corrupção policial, que não é um desvio individual, mas um problema estrutural, em que as instituições de segurança organizam atividades ilícitas, competindo ou cooperando com facções e milícias, segundo a obra.
Na semana passada, o advogado Victor Travancas foi exonerado do cargo de assessor na Secretaria estadual da Casa Civil no Rio de Janeiro após proferir uma série de acusações contra o governador Cláudio Castro (PL) e dizer que "o Palácio Guanabara é a sede do crime organizado". O governo não comentou.
Esse cenário impacta a vida urbana, onde a ostensividade do crime ?de taxas cobradas por milicianos a serviços clandestinos de internet? só prospera com a complacência de agentes públicos corruptos.
Para os autores, o Rio vive sob a "geografia do inimigo", com incursões policiais militarizadas que não reduzem o crime, mas elevam a letalidade. A solução proposta foge do populismo penal, sugerindo uma agenda de "accountability", inteligência e controle rigoroso pelo Ministério Público, além de uma depuração institucional que pode exigir até intervenções federais temporárias.
A economia do estado é descrita como refém de uma dependência excessiva de receitas voláteis. A seção sobre finanças revela como a bonança dos royalties do petróleo, entre 2006 e 2014, foi desperdiçada em gastos com funcionalismo e isenções fiscais sem contrapartida técnica. O resultado foi um colapso que levou ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF), descrito como um "paliativo" que adiou reformas profundas.
A indústria do petróleo, que responde por quase 80% das exportações fluminenses, enfrenta o desafio do "pós-petróleo". Com o pico de produção previsto para 2030 e o declínio subsequente, os autores sugerem a criação e gestão ética de um fundo soberano, inspirado em modelos como o da Noruega, para converter a riqueza finita em desenvolvimento sustentável para as futuras gerações.
A crise de governança transborda para a saúde, educação e infraestrutura. Na educação, o Rio amarga a penúltima posição no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do ensino médio, com recordes de reprovação e alunos encurralados pela violência.
Na saúde, apesar de avanços tecnológicos como o Centro de Inteligência em Saúde, persistem desigualdades regionais brutais, com a pior taxa de mortalidade materna do Sudeste.
Um ponto inovador da obra é a análise das desestatizações. O fracasso de concessões como a SuperVia e as Barcas não é atribuído ao modelo privado em si, mas à fragilidade institucional do estado. Em áreas dominadas pelo crime, concessionárias como a Light enfrentam "perdas não técnicas" (furtos) que inviabilizam o negócio.
A obra identifica o turismo, a economia criativa (audiovisual, games e música) e a inovação digital como "setores portadores de futuro". A marca "Rio" seria um ativo global subaproveitado devido à infraestrutura precária e à insegurança. A proposta é uma "inflexão estratégica": investir em economia verde, restaurar 500 mil hectares de vegetação nativa para reduzir riscos climáticos e transformar o estado em um polo tecnológico.
Para um dos organizadores do livro, o economista Fabio Giambiagi, pesquisador associado do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da FGV, a experiência do estado vizinho Espírito Santo nos anos 2000 mostra que a volta por cima é possível. "Mas será preciso novas lideranças políticas, com a recuperação do controle territorial e a mensagem aos cidadãos de que quem manda é o Estado", afirma.
UM RENASCER PARA O RIO - PROPOSTAS PARA UM ESTADO PRÓSPERO E SUSTENTÁVEL
- Preço R$ 80,00 (livro físico); R$ 54,00 (ebook)
- Editora Lux (320 págs.)
- Organização Fabio Giambiagi, Marco Aurélio Cardoso e Guilherme Tinoco