RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O vereador do Rio de Janeiro Salvino Oliveira (PSD) afirmou nesta segunda-feira (16) que um valor tratado pela polícia como suspeito é, na verdade, fruto de uma premiação recebida por ele na ONU (Organização das Nações Unidas). O parlamentar chegou a ser preso pela Polícia Civil na semana passada, mas acabou solto na sexta-feira (13) após a Justiça do estado considerar "precários" os indícios apontados contra ele pela investigação.

Ex-secretário da Juventude do prefeito Eduardo Paes e vereador da base municipal, Salvino foi preso sob suspeita de contatos com membros do Comando Vermelho, o que é refutado por ele. A polícia nega a versão apresentada pelo político e diz que o valor identificado como "atípico" não tem relação com o prêmio da ONU.

Na sexta-feira, a Polícia Civil divulgou uma nota à imprensa em que detalhou dados sigilosos de transações bancárias do vereador, de um dos assessores e da esposa deste assessor. A nota menciona que Salvino teria recebido "créditos suspeitos e/ou atípicos que ultrapassam R$ 100 mil, iincluindo 11 depósitos em dinheiro vivo.

"Um grande volume de dinheiro entra na minha conta, são R$ 117.000 e uns quebrados [R$ 117.227], que é o valor da ONU. Todo o restante é de valores irrisórios, ao longo de um ano de transações, um fluxo de conta normal", afirma Salvino à Folha. O vereador publicou nesta segunda-feira um vídeo em que exibe extratos bancários.

Vereador eleito em 2024, ele foi uma das 5 pessoas escolhidas na Cúpula de Jovens Ativistas de 2025, na sede da ONU, em Genebra, na Suíça. Os candidatos passam por seleção e, uma vez escolhidos, recebem treinamento em arrecadação de fundos e oratória, além de uma premiação ?a ONU confirmou à reportagem o repasse de valores, sem detalhar a quantia.

Salvino foi escolhido pelo trabalho com "educação e acesso à tecnologia para jovens em favelas".

Em nota nesta terça (17), a Polícia Civil divergiu da versão do vereador e disse que os R$ 100 mil tratados como "atípicos" pela investigação "não possuem qualquer relação com a premiação concedida pela ONU".

A Polícia Civil diz que as "transações atípicas e/ou suspeitas" são do segundo semestre de 2024.

Na primeira nota, de sexta, a polícia dizia que "em apenas quatro meses, o investigado [Salvino] recebeu créditos suspeitos e/ou atípicos que ultrapassam R$ 100.000".

A Polícia Civil não esclarece nas notas se o período de quatro meses foi em 2024. O extrato divulgado por Salvino como pagamento da ONU tem data de depósito do dia 16 de janeiro de 2026.

A polícia menciona ainda transferências bancárias a Salvino feitas por uma empresa de informática do complexo da Maré. A transação é considerada suspeita porque a empresa fica em área sob controle do Comando Vermelho.

A Folha mostrou que apenas o primeiro nome de Salvino é mencionado em uma conversa interceptada e exibida na representação policial, e o relatório apresentado à Justiça para embasar o pedido de prisão não aponta outras provas que confirmem que a mensagem se refere ao vereador.

O documento afirma que o vereador teve como slogan de campanha "vereança das favelas do Rio" e o destacou como "cria da Cidade de Deus", vinculando-o ao diálogo entre dois integrantes do CV.

Salvino foi solto em decisão do desembargador Marcus Basílio, que afirmou que o indício de envolvimento dele com a facção criminosa "é bastante precário".

PARLAMENTAR NEGA LIGAÇÃO COM O COMANDO VERMELHO

"Não tenho contato com bandidos, não faço favor ao Comando Vermelho, não devo favor e não peço nenhum tipo de ajuda. Me assusta que, infelizmente, as nossas polícias, que estão lotadas de bons policiais, sejam mais uma vez vítimas da politização. Fui preso para depois ser investigado com base em um print de uma conversa de terceiros. Isso é assustador numa democracia", afirma.

A prisão de Salvino gerou reações de Paes e de parlamentares do PSD. Ainda na sexta, horas antes da revogação da prisão, correligionários foram à PGR (Procuradoria-Geral da República) e à Polícia Federal para representar contra a operação.

A prisão do vereador foi usada em embates políticos. O governador Cláudio Castro (PL) publicou vídeo em que chama Salvino de "braço direito do Comando Vermelho dentro da Prefeitura do Rio". O vídeo segue nas redes sociais do governador, mesmo após a revogação da prisão.

Já Paes, que vai renunciar à prefeitura esta semana para focar na pré-candidatura ao governo fluminense, chamou membros do governo estadual de "corja de covardes" e "bandidos", e o Cláudio Castro de "frouxo".

"No momento em que o policial diz o porquê da prisão, lembro de falar com a minha esposa que se tratava de uma prisão política", diz Salvino.

No vídeo publicado por Castro, um dos policiais, durante busca em um dos cômodos da casa, mexe em um quadro da campanha eleitoral de 2024 em que Paes e Salvino estão juntos.

"Quando essa imagem aparece, é a segunda vez que eles mexem. Esse policial já havia mexido nas coisas e visto a placa. Daí, avisa ao videomaker da polícia e mexe de novo para captar a imagem", afirma o vereador.