SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Candidatos apontam erros nas notas e dificuldades de acesso ao espelho da redação do Enem 2025, divulgado nesta terça-feira (17) pelo Inep, instituto vinculado ao MEC (Ministério da Educação). Após a liberação, a página com a análise pedagógica dos textos produzidos pelos candidatos ficou indisponível para parte dos estudantes.
Relatos nas redes sociais indicam inconsistências na soma das pontuações e notas atribuídas fora do padrão de correção do exame. Pela regra, cada uma das cinco competências é avaliada por dois corretores, com notas em intervalos fixos que vão até 200 pontos por critério.
Procurado na manhã desta terça-feira, o Inep respondeu apenas à tarde, após a publicação inicial deste texto. O instituto afirmou que não houve alteração nem erro na nota final da redação do Enem 2025, disponível no boletim de desempenho dos candidatos.
O órgão informou que solicitou ao Cebraspe, responsável pela aplicação do exame, a correção na apresentação das notas por competência no espelho da redação. Segundo o Inep, o sistema foi normalizado e já está disponível para acesso.
No modelo de correção do Enem, cada competência da redação é avaliada por dois corretores independentes, que atribuem notas em intervalos fixos, de 40 em 40 pontos (como 200, 160, 120). A nota final de cada competência resulta da média dessas duas avaliações. Por isso, os resultados esperados seguem um padrão previsível, com valores múltiplos ou intermediários compatíveis com essas combinações.
Nesse sistema, uma nota como 170 não se encaixa nas possibilidades matemáticas da correção, já que não pode ser obtida a partir da média entre dois valores válidos dentro da escala adotada pelo exame.
O estudante Lucas do Nascimento, 22, afirma ter encontrado essas divergências ao acessar o espelho. Segundo ele, a soma das competências não correspondia à nota final divulgada. "Somando, dava 900, mas minha nota foi 960", diz. Ele também relata a presença de valores que não são usados no modelo de correção. "Apareciam notas como 170 e 150, que não existem nesse sistema."
O candidato afirma que chegou a registrar a tela antes de o sistema sair do ar. "Eu até gravei, porque imaginei que poderiam tirar do ar. Quando fui acessar depois, já não estava mais disponível", diz. Para ele, a falha impede a compreensão do próprio desempenho. "Queria ver onde errei para melhorar, mas recebi uma bagunça."
Outros estudantes relatam que não conseguiram acessar a vista pedagógica ao longo do dia. Em alguns casos, o sistema ficou indisponível logo após a primeira consulta.
Laura Pereira, 18, também percebeu as inconsistências no espelho da redação. Segundo ela, a nota final foi 920, mas a soma das competências exibidas na vista pedagógica chega a 860. No detalhamento, aparecem 150 pontos na competência 1 e 190 na competência 5, valores que fogem do padrão esperado.
Laura diz que só conseguiu acessar os arquivos na manhã seguinte à data prevista para a divulgação, por volta das 8h. Ao verificar as notas, considerou inicialmente a possibilidade de discrepância entre corretores. "Pensei que poderia ter ido para um terceiro corretor e gerado uma média diferente", afirma. Ao pegar uma calculadora para refazer a soma, percebeu a divergência.
"Fiquei com medo de a nota 920 ter sido lançada errado e depois ser reduzida", diz. Ela procurou professores para entender o caso e afirma não ter encontrado situação semelhante entre colegas.
O professor e coordenador de redação do Colégio e Curso pH, Thiago Braga, afirma que a falha pode afetar a confiança dos candidatos no exame. Segundo ele, o impacto é importante porque o Enem é base para políticas públicas como o Sisu e o Fies. "Muitos estudantes passam a desconfiar do próprio resultado. É fundamental que o Inep esclareça o que ocorreu para não comprometer a credibilidade do processo", diz.
Para a professora de redação da escola bilíngue Eleva Gabriella Jardim, a inconsistência aponta para falha na divulgação das informações. "Esse tipo de pontuação é incompatível com o modelo. Não é possível, do ponto de vista lógico e matemático, chegar a esse resultado", afirma.
O espelho da redação permite ao candidato ver a correção detalhada do texto e a pontuação em cada competência. O documento tem caráter informativo e não permite contestação ou revisão da nota.
O tema da redação em 2025 foi "Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira". A prova exigiu um texto dissertativo-argumentativo, no qual o candidato deveria defender um ponto de vista e propor uma intervenção que respeitasse os direitos humanos. Na reaplicação realizada em cidades do Pará em razão da COP30, o tema foi "A valorização dos trabalhadores rurais no Brasil".
OUTRAS POLÊMICAS
Esta não é a primeira controvérsia envolvendo a redação do Enem 2025. As notas foram divulgadas em 16 de janeiro e, após a publicação, estudantes passaram a relatar nas redes sociais queda no desempenho, especialmente na comparação com simulados e edições anteriores do exame.
À época, o Inep afirmou à Folha que não houve mudança nos critérios de correção. Segundo o instituto, uma das hipóteses para a percepção de notas mais baixas foi o uso crescente de "repertórios de bolso" -citações genéricas, frases feitas e introduções prontas. O órgão reforçou na Cartilha do Participante a importância da autenticidade textual e orientou candidatos a evitar esse tipo de recurso.
O exame também foi alvo de questionamentos após a circulação de vídeos com previsões de questões que apareceram na prova. O autor do material, o estudante de medicina da UFC (Universidade Federal do Ceará) Edcley Teixeira, afirmou que se baseou na análise de pré-testes aplicados pelo Inep e em padrões recorrentes do exame.
O caso levou o MEC a anular três questões do Enem 2025 e a acionar a Polícia Federal. Segundo o ministério, a medida ocorreu após a identificação de itens semelhantes aos divulgados antes da aplicação oficial.