SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O soldado da PM paulista Augusto César Garcia foi acordado na manhã de 7 de fevereiro de 2019 por agentes da Corregedoria, que batiam à porta de sua casa. Diante de uma ordem judicial de busca e apreensão, só pôde assistir à intimidade da família ser revirada.
O momento mais doloroso, conforme diz, foi ver sua moto Yamaha MT-09 ser colocada em um guincho e levada por policiais do órgão. "Eles vistoriaram a moto e, como não encontraram nada, mandaram que eu a guardasse. Uma hora depois pediram que eu a pegasse novamente e disseram que iriam levá-la. A justificativa foi que seria interessante para a investigação. Só isso", afirma.
Garcia conseguiu recuperar o veículo apenas no último dia 4 de março. Já não era, porém, a moto "zerada" retirada da garagem de sua casa sete anos antes, ou 2.582 dias. O que encontrou foi uma sucata.
"Quando me levaram até o local onde a moto estava, encontrei o veículo sem motor, sem tanque de combustível, sem radiador, sem farol, sem módulo e com o banco totalmente rasgado. Na prática, recuperei apenas o quadro, duas rodas e o guidão. A sensação é de ter sido roubado", diz.
Garcia ingressou na Polícia Militar em 2013, aos 21 anos, e trabalhou sempre em uma unidade da zona norte da capital paulista. Dois anos depois, passou a gravar vídeos de viagens e passeios de moto para publicar no YouTube. Em 2018, decidiu incluir também imagens do cotidiano da atividade policial.
"Queria mostrar as dificuldades do dia a dia e também as glórias de ser policial. A ideia era enaltecer o trabalho da PM e mostrar à sociedade nossa dificuldade e nossa vontade de proteger o cidadão de bem."
O sucesso foi praticamente imediato. Vídeos de perseguições policiais viralizaram e fizeram o canal atingir quase 1 milhão de seguidores. No auge, chegou a registrar cerca de 60 milhões de visualizações em um único mês. A popularidade trouxe fama, novas amizades e renda com a monetização do conteúdo.
Com parte do dinheiro recebido do YouTube e o valor obtido com a venda de outra moto, Garcia comprou a Yamaha por R$ 45 mil. Tudo parecia ir bem até a operação da Corregedoria.
No dia da busca e apreensão, descobriu que era investigado havia um ano. Segundo ele, os policiais tinham imagens do canal, da casa e interceptações telefônicas. Tornou-se alvo de sete IPMs (Inquéritos Policiais Militares) e afirma ter sido orientado a pedir baixa diante do que classifica como perseguição implacável.
Em 2020, deixou a PM. Os processos contra ele foram arquivados a pedido do Ministério Público. Ainda assim, em 2021, foi demitido em processo administrativo pela PM. De todas as investigações, apenas uma resultou em denúncia: suspeita de adulteração do chassi da moto.
No fim de 2025, porém, o promotor do caso pediu sua absolvição ao afirmar que ficou comprovada a inexistência de crime, porque o processo havia sido aberto com base em laudo errado. "Quanto à alegada adulteração do motor, trata-se de erro material no laudo pericial, que utilizou numeração equivocada fornecida pela fabricante (N0704E-000735), quando a numeração correta é N704E-000735 [...]. Com a absolvição definitiva, cessa o interesse estatal sobre o bem", diz manifestação do Ministério Público.
A decisão autorizou Garcia a retirar a moto. Foi quando descobriu que o veículo permaneceu até 2022 no pátio da própria Corregedoria. Depois foi transferido para um pátio particular em Atibaia, onde acabou depenado por criminosos.
O ex-PM afirma que avalia agora quais medidas judiciais adotará. Além de pedir ressarcimento aos responsáveis pelo pátio, pretende acionar judicialmente os responsáveis pela apreensão da moto e pela demissão da corporação.
Após deixar a PM, Garcia retomou a faculdade e concluiu o curso de direito que havia abandonado anos antes. Em 2023, conseguiu estágio em um escritório de um amigo, também ex-policial militar, Fernando Vieira. Tornou-se supervisor e, após obter a OAB no ano passado, passou a ser diretor da área trabalhista da FAV Advogados, na zona sul de São Paulo.
Procurada, a empresa responsável pelo pátio onde estava a moto não respondeu a reportagem até a publicação deste texto.
Já a Polícia Militar disse que Garcia solicitou exoneração em novembro de 2020. Em 2021, ele foi demitido em processo disciplinar. A corporação não informou o motivo. A nota afirmou ainda que a destinação da moto atendeu determinação judicial.
"A motocicleta citada foi apreendida durante investigação da Corregedoria da PM, em cumprimento a mandado judicial de busca e apreensão. A destinação e a guarda do veículo seguiram determinações judiciais, com restituição registrada em boletim de ocorrência pelo 3º Distrito Policial (Campos Elíseos)."
A corporação disse, também, que atua de forma permanente para garantir a observância das normas institucionais e a adequada conduta funcional de seus integrantes, preservando a legalidade das ações policiais e a imagem da instituição.