SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A trilha parecia tranquila. Eram cerca de 19h30 quando o neurocirurgião do Hospital Albert Einstein Marcelo de Lima Oliveira, 55, decidiu seguir por um trecho de terra dentro do Parque Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, onde costuma caminhar algumas vezes por semana.

Poucos minutos depois, dois jovens o cercaram. Ele tentou fugir, mas não havia para onde correr. Foi derrubado com uma rasteira e espancado durante cinco minutos enquanto os assaltantes tentavam arrancar seu celular, escondido no bolso da bermuda.

"Um segurava minha mão enquanto o outro tentava tirar o celular do bolso. Eu comecei a gritar por socorro", disse à Folha. Pessoas próximas a um estacionamento ouviram e começaram a gritar também, o que fez os suspeitos se dispersarem, já com o aparelho em mãos.

O caso ocorreu no fim de fevereiro e é um dos relatos recentes de violência dentro do parque mais famoso da capital paulista.

Delitos do gênero registrados no parque vêm caindo nos últimos anos, segundo dados da SSP (Secretaria de Segurança Pública), mas ainda preocupam usuários.

Em 2024 foram 115 furtos ou roubos de celulares no local. No ano passado os casos caíram para 88, o que significa uma redução de 23,5%. Em toda a cidade, a diminuição foi menor no período, de 1,1% ? 161.666 casos no ano passado, contra 163.437 em 2024.

Em janeiro deste ano, único mês cujos números estão disponíveis, foram cinco registros. Não há informações sobre outros tipos de roubos e furtos no parque, apenas sobre os casos que envolvem celular.

Os registros no entorno do parque são maiores e cresceram 69% no ano passado, em comparação com o ano anterior. Foram 800 furtos ou roubos de celulares em 2025 ?708 furtos e 92 roubos? frente a 472 ocorrências do gênero em 2024, quando foram registrados 410 furtos e 62 roubos. Os números consideram as avenidas Quarto Centenário, República do Líbano e Pedro Álvares Cabral, que circundam o Ibirapuera.

A concessionária Urbia diz que as estatísticas não refletem necessariamente ocorrências dentro do Ibirapuera. Em nota, a empresa afirma que o espaço é "uma bolha de segurança na cidade de São Paulo" e que conta com sistema de monitoramento que apoia a atuação da GCM (Guarda Civil Metropolitana).

Usuários do parque relataram à Folha episódios recorrentes de furtos e abordagens, principalmente em áreas menos movimentadas. A dinâmica dos crimes costuma ser rápida: suspeitos surgem em áreas com vegetação mais densa e abordam pessoas geralmente distraídas.

O neurocirurgião, por exemplo, foi agredido por criminosos ao entrar numa trilha próxima ao portão 4. O incidente mudou a relação que mantém com o parque. Seus treinos agora se restringem às áreas principais e durante a manhã.

A sensação de insegurança atinge também quem trabalha no parque. Um homem que atua em uma das barracas há cerca de um ano e meio diz que há registros de invasões em quiosques do parque, com episódios repetidos em curtos intervalos de tempo. Ele pediu para não ter seu nome divulgado.

Segundo ele, criminosos utilizam ferramentas para arrombar estruturas e levar produtos e equipamentos também durante a madrugada, quando o parque está fechado.

No local, é comum ver corredores com fones de ouvido, ciclistas e visitantes que tiram o celular do bolso para registrar a paisagem. A mesma cena que atrai frequentadores pode facilitar a ação de criminosos.

Foi o que ocorreu com uma mulher que trabalha em uma barraca próxima à rua da Bienal e que também pediu para não ter seu nome divulgado por temer represálias. Ela manuseava o celular quando percebeu um adolescente observando o movimento.

Guardou o aparelho e o jovem mudou imediatamente de posição. Passou a circular próximo a bicicletas estacionadas. Uma viatura policial passou pelo local e ela decidiu alertar os agentes. Ao ser abordado, o adolescente fugiu.

De acordo com ela, comerciantes evitam registrar ocorrência por medo. Relatos apontam que algumas barracas já foram furtadas diversas vezes, especialmente em áreas com menor circulação, como a região do bambuzal.

A Urbia afirmou à Folha que o parque conta com 283 câmeras de monitoramento, centro de controle 24 horas e equipes de segurança patrimonial que atuam com veículos, motos e bicicletas. A empresa diz que as imagens são disponibilizadas às autoridades quando solicitadas.

A concessionária afirmou também que não houve registro de furtos em quiosques dentro do parque em março e que medidas como substituição de carrinhos por modelos mais resistentes, além de orientação aos vendedores, foram adotadas.

Já a Prefeitura de São Paulo disse à Folha que a GCM (Guarda Civil Metropolitana) realiza patrulhamento no parque e pode ser acionada sempre que há ocorrências. A gestão municipal informa ainda que a concessionária é responsável pela segurança patrimonial, com vigilantes, monitoramento por câmeras e rondas periódicas, conforme previsto em contrato.

A SSP disse à reportagem que polícias Civil e Militar reforçaram as ações e atuam de forma integrada na região do Parque Ibirapuera e no entorno dos Jardins com ações voltadas à prevenção e repressão de furtos e roubos.

Já a gestão municipal afirmou que houve reforço recente no policiamento e que o entorno do parque conta ainda com câmeras do programa Smart Sampa.