RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Oito pessoas morreram durante uma operação da Polícia Militar no Rio de Janeiro em favelas da região central da cidade, nesta quarta-feira (18). Um dos mortos, identificado como Leandro Silva Souza, era morador do morro dos Prazeres e foi atingido dentro de casa enquanto a polícia negociava a rendição de suspeitos.
A corporação afirmou que Leandro foi baleado durante uma tentativa de negociação com criminosos que haviam invadido sua residência e feito ele e a esposa refém. A versão, no entanto, é contestada pela mulher dele, Roberta Ferro Hipólito, que nega ter sido rendida.
De acordo com o governador Cláudio Castro (PL), Roberta foi resgatada sem ferimentos e em estado de choque.
Os outros sete mortos eram considerados suspeitos pela PM. Seis deles foram atingidos enquanto estavam na mesma residência de Leandro.
Claudio Augusto dos Santos, o Jiló dos Prazeres, apontado como líder do tráfico na comunidade e ligado ao Comando Vermelho, está entre os suspeitos mortos.
No fim da tarde, novos tiroteios foram registrados na região. Por volta das 18h, as plataformas Onde Tem Tiroteio e Fogo Cruzado apontaram disparos no Rio Comprido, na rua Barão de Petrópolis, e nas comunidades do Fallet e Fogueteiro.
Em nota, a Polícia Militar afirmou que equipes da FAT (Força de Ações Táticas) patrulhavam o entorno da comunidade dos Prazeres quando avistaram um homem que tentou fugir, mas foi alcançado e levado à 6ª DP (Cidade Nova).
Ainda de acordo com a PM, durante a ação, criminosos posicionados na parte alta da comunidade atiraram contra os agentes, o que motivou o acionamento de reforço policial.
Também por volta das 18h, a corporação disse nas redes sociais que equipes do Batalhão de Choque prenderam três suspeitos em flagrante durante patrulhamento na rua Barão de Petrópolis, onde foram apreendidas duas pistolas, grande quantidade de drogas, trajes camuflados e outros materiais.
A PM afirmou também que o patrulhamento segue intensificado na região.
Durante o dia, em represália à operação, um ônibus foi incendiado na avenida Paulo de Frontin, principal acesso ao túnel Rebouças, que liga o centro e a zona norte à Lagoa, na zona sul. O veículo, da linha Central x Leblon, estava sem passageiros.
Outros seis ônibus foram roubados e usados como barricadas. O acesso ao túnel chegou a ter interdições, e quatro pessoas foram presas por obstrução de vias.
A PM informou que reforçou o policiamento nos acessos ao Rebouças e em ruas do Rio Comprido, onde parte do comércio fechou ao longo do dia.
As operações ocorreram nas comunidades do Fallet e Fogueteiro, Prazeres e Paula Ramos, entre os bairros de Santa Teresa e Rio Comprido. Houve registro de tiroteio desde o início da manhã, por volta das 6h.
Em entrevista coletiva no início da tarde, representantes da PM disseram que a morte de Leandro ocorreu durante tentativa de rendição de suspeitos. O grupo foi seguido em uma comunidade e entrou em uma residência, fazendo refém, segundo a polícia, a família que vive no local.
"Começou uma negociação preliminar e no momento em que a gente buscava uma solução pacífica houve disparos de dentro da residência e o Leandro sofreu um tiro na cabeça. Nossa tropa respondeu imediatamente e houve essa neutralização [morte] de seis criminosos", disse o comandante do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), Marcelo Corbage.
A versão da polícia é contestada por Roberta, mulher de Leandro. Em entrevista à TV Globo, na porta do IML (Instituto Médico-Legal), ela afirmou que nem ela nem o marido foram feitos reféns e que os criminosos pretendiam se entregar.
"Em momento algum a gente foi feito de refém. Não fomos ameaçados. Eles falaram assim ?tia, não se preocupe, se a polícia vim a gente vai se entregar, mas fica calada, a gente vai se entregar?", disse.
Segundo ela, a polícia entrou no imóvel atirando. "A polícia derrubou a porta da minha casa com uma granada e já entrou atirando, não teve troca de tiros. Os três elementos que tavam dentro do meu quarto foram mortos sem reagir também. O meu marido ainda gritou ?tem trabalhador aqui, tem morador?. Mas a polícia já entrou atirando", afirmou.
Roberta também disse que foi a ação policial que matou o marido. "O único tiro que teve lá foi o da polícia, não teve troca de tiro", disse.
Segundo Castro (PL), os criminosos invadiram a casa durante a fuga e fizeram moradores reféns. "O que mais revolta é o que esses bandidos fazem com quem não tem nada a ver com isso. Na fuga, invadiram a casa de um casal, fizeram os moradores reféns e mataram um homem inocente", afirmou, nas redes sociais.
À exceção de Claudio Augusto dos Santos, o Jiló, os nomes dos mortos não foram divulgados.
Na terça-feira (17), policiais já haviam realizado uma operação para prender suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas na Lapa, também na região central. A ação resultou em 17 presos.
O secretário da PM, coronel Marcelo Menezes, afirmou que a corporação identificou naquele dia o que seria o esconderijo de Jiló dos Prazeres.
"Determinei que a gente estabelecesse uma operação cirúrgica na região", disse Menezes. "Jiló exercia uma função importante na cadeia de comando do CV, responsável por ações criminosas no centro, zona sul e Tijuca [zona norte]".
Durante a coletiva Menezes exibiu uma pilha de papéis colados, com mais de 2 metros, para exibir o que seria o número de anotações criminais de Jiló.
Alvo da operação de terça, a atuação do tráfico na Lapa é ordenada, segundo investigação, por Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, apontado como um dos principais líderes do Comando Vermelho no estado. A rede do tráfico, ainda segundo as investigações, atua em sobrados vazios e com uso de vendedores ambulantes.