BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Faltam dados para dimensionar a responsabilidade da mudança climática na chuva recorde que atingiu a zona da mata mineira, no fim de fevereiro. O que se tem, porém, é suficiente para indicar que o aquecimento global vai aumentar a intensidade dos próximos eventos extremos que atingirem a região.
Não faltaram dados também para alertar a população de que uma precipitação sem precedentes estava a caminho. Ainda assim, 65 mortes foram registradas em Juiz de Fora e 7 na vizinha Ubá, a maior parte vítima de deslizamento de encostas. Vulnerabilidade exacerbada pela chuva recorde, mas cuja raiz está na desigualdade e no planejamento inadequado.
As conclusões fazem parte de um estudo de atribuição do WWA (World Weather Attribution), consórcio de pesquisadores liderado pelo Imperial College de Londres, que busca identificar o papel da mudança climática em eventos extremos.
O registro histórico de precipitações em Juiz de Fora mostra a excepcionalidade da chuva que atingiu a região há três semanas. Foi o maior acumulado pluviométrico para um mês de fevereiro desde 1961, quando os dados começaram a ser coletados na estação instalada no campus da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Os 752,4 mm deste ano configuram um novo patamar. Até então, o maior volume havia sido registrado em 1988, 456,1 mm. A análise dos dados observacionais a partir de modelos climáticos, no entanto, não conseguiu comprovar a influência do 1,3°C de aquecimento global no episódio.
"Foi um fenômeno muito concentrado. Isso é um problema no Brasil", diz Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, integrante da rede de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas e uma das autoras do estudo do WWA.
"A era satelital começou em 1979. Quando você tem produtos de análise para trás de 79, em localizações que não tinham dados de campo, a interpolação fica muito genérica", diz Rodrigues. "Vamos dizer que, em 1950, tinha uma estação meteorológica em Belo Horizonte. É um clima completamente diferente do de Juiz de Fora. Só que esse vai ser o ponto mais próximo e vai ser interpolado ali."
A professora usa o exemplo da enchente histórica do Rio Grande do Sul, em 2024, para ilustrar a questão. "Foi um troço tão grande, pegou o estado inteiro, então tínhamos dados de mais estações", afirma Rodrigues, que participou naquele ano do estudo do WWA sobre o evento. A mudança climática dobrou a chance da enchente ocorrer, concluiu-se à época.
"O ideal seria ter [dados] por mais tempo e de qualidade mais próxima ao local do acontecimento. E é isso o que a gente não tem."
Modelos climáticos são as ferramentas que os cientistas usam para determinar quanto um evento extremo se deve a fatores naturais e quanto à mudança climática, provocada sobretudo pela queima de combustíveis fósseis. Dados observacionais são usados para identificar padrões climáticos que, comparados com a era pré-industrial, indicam o peso do aquecimento global, hoje em 1,3°C.
Na Europa e nos EUA, a coleção desses dados é bem mais antiga, proporcionando mais precisão aos modelos. Até mesmo o trabalho dos satélites carrega essa influência, pois são calibrados com os dados in situ das estações meteorológicas do hemisfério norte.
"No Reino Unido, eles pegam tudo, digitalizam, e [os modelos] absorvem. O produto vai ficando cada vez melhor, com estimativas desde 1800. Eles liberam esses dados, mas é um chute usar isso para a América do Sul, porque não tinha nada aqui em 1800."
Se é difícil determinar a responsabilidade humana na recente alteração observada em Juiz de Fora, é possível projetar que o aquecimento global aumentará a intensidade dos próximos eventos extremos na região em 7%.
"Com um aquecimento futuro de 2,6°C, a gente vê um sinal gritante de aumento. E é isso o que importa: o futuro vai ter muito mais casos como esse", diz a professora, sublinhando a necessidade de um novo patamar de planejamento urbano.
O impacto das chuvas, mostrou a Folha de S. Paulo em fevereiro, evidenciou a desigualdade nos bairros de encostas da cidade mineira.
"Juiz de Fora deixou claro como chuvas extremas podem desencadear consequências de riscos já conhecidos, mas que não foram suficientemente abordados por meio de políticas públicas preventivas", afirma Pedro Camarinha, do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). "Quando o planejamento urbano, as medidas de redução de riscos e a proteção das comunidades expostas continuam sendo inadequados, os sistemas de alerta precoce tornam-se o instrumento decisivo para salvar vidas."
Com 540.756 habitantes, Juiz de Fora é a nona cidade brasileira em população sob risco de deslizamentos e enchentes. E, apesar de contar com um sistema de alerta acima do padrão nacional, parte de seus moradores não recebeu avisos por mensagem de texto; outros se recusaram a deixar suas casas por medo de saques ou por falta de confiança nos esquemas de emergência montados pelo governo local.
"A eficácia do sistema depende da comunicação clara dos riscos de desastres à população, por meio de uma ação coordenada entre as instituições e a sociedade. Os sistemas de alerta precoce devem, portanto, ser mais valorizados e continuamente aprimorados", diz Camarinha.
Investimento em prevenção, ciência e educação que não pode esperar. Neste ano, a se confirmar após a primavera europeia, haverá novo El Niño, fenômeno natural que turbina os efeitos da mudança climática.
"Se vier do jeito que está sendo projetado, será grande. E aí é mais seca na amazônia e mais chuva na região Sul", diz Rodrigues, lembrando dos eventos extremos exacerbados pelo último El Niño, em 2024.