SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A Câmara Municipal de São Paulo aprovou em primeira votação ontem um projeto de lei que propõe trocar o nome da rua Peixoto Gomide, em São Paulo, para rua Sophia Gomide. A mudança busca reparar a homenagem feita ao então senador e advogado Francisco de Assis Peixoto Gomide Júnior. Ele matou a própria filha, Sophia Gomide, em 1906.

QUEM ERA SOPHIE GOMIDE E COMO FOI SUA MORTE

Sophie Gomide era filha de Francisco Peixoto Gomide, um advogado e político influente da elite paulista no início do século 20. À época do crime, ela tinha 22 anos e vivia na capital paulista.

A jovem estava prestes a se casar com o poeta e promotor público de Itapetininga Manuel Baptista Cepelos. O casamento, no entanto, enfrentava forte oposição do pai, que não aceitava o relacionamento.

Crime chocou São Paulo há 120 anos. O assassinato de Sophia ocorreu em 20 de janeiro de 1906, dentro da casa da família, localizada na Rua Benjamin Constant, em São Paulo.

Segundo relatos históricos, Sophia estava sentada na sala bordando quando foi surpreendida pelo pai. Inconformado com a decisão da filha de se casar, Peixoto Gomide sacou um revólver e disparou contra a testa da jovem, matando-a instantaneamente.

Após cometer o crime, ele tirou a própria vida. Dias antes da tragédia, o político teria procurado um psiquiatra e afirmado que preferia ver a filha morta a aceitar o casamento.

O caso teve grande repercussão na imprensa da época e abalou a sociedade paulistana. O enterro de Sophia, no Cemitério da Consolação, reuniu muitas pessoas, entre desconhecidos e figuras influentes da cidade. Não há registros em fotos de Sophia Gomide.

HOMENAGENS AO POLÍTICO MESMO APÓS O CRIME

Nome de Peixoto Gomide acabou sendo eternizado em São Paulo e no interior do estado. Em 1914, a Câmara Municipal de São Paulo batizou uma via na região da Avenida Paulista com seu nome: a atual Rua Peixoto Gomide, que atravessa os bairros Bela Vista e Jardim Paulista.

Em Itapetininga, o nome do político também se repete em diversos espaços públicos, como avenida, praça e uma instituição de ensino. A Escola Estadual Peixoto Gomide, uma das mais antigas do estado de São Paulo, foi fundada em 1894 e recebeu oficialmente esse nome em 1922, durante o centenário da Independência do Brasil.

Projeto quer mudar nome da rua para Sophia Gomide. Décadas depois, a homenagem ao político passou a ser questionada. O projeto de lei para mudar o nome da rua foi apresentado pelas vereadoras Silvia Ferraro, da Bancada Feminista do PSOL, e Luna Zarattini (PT), como parte da campanha "Feminicida não é herói".

A proposta pretende retirar a homenagem ao autor do crime e substituí-la pelo nome da vítima, em uma medida considerada pelas autoras como uma reparação histórica. Na primeira votação realizada pela Câmara Municipal, o texto foi aprovado por 33 votos favoráveis e nenhum contrário.

Antes disso, o projeto já havia passado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), responsável por analisar a legalidade das propostas. O parecer foi aprovado, com apenas um voto contrário, do vereador Lucas Pavanato (PL).

Agora, o projeto ainda precisa passar por uma segunda votação no plenário da Câmara Municipal de São Paulo. Se for aprovado novamente, seguirá para sanção do prefeito Ricardo Nunes, que já declarou publicamente que pretende sancionar a mudança. Segundo ele, homenagear alguém que matou uma pessoa já seria inadequado -e a situação se torna ainda mais grave quando a vítima é a própria filha.