RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Eduardo Cavaliere (PSD), 31, assume a prefeitura do Rio de Janeiro a partir desta sexta-feira (20) com as missões de manter a estrutura do antecessor Eduardo Paes (PSD), fazer funcionar a investida municipal na segurança pública e tirar do papel uma grande reforma no centro, que inclui a demolição de um elevado ?projeto estimado em R$ 1,7 bilhão que só começou a ser discutido na Câmara este mês.

Nos bastidores, Cavaliere, segundo fontes que circulam na prefeitura, vai precisar conquistar aliados de Paes, incluindo secretários e vereadores ainda resistentes ao seu estilo impositivo. O novo prefeito vai manter, pelo menos até o fim do ano, o núcleo duro do antecessor.

Jorge Arraes, "faz-tudo" das gestões de Paes e atual secretário de Transportes, e Felipe Santa Cruz, secretário de Governo, são alguns dos mantidos. Secretários que pretendem se candidatar nas eleições de outubro vão escolher os substitutos, mantendo a atual distribuição de partidos.

Carioca, Cavaliere estudou no colégio católico Santo Agostinho, no Leblon, dos mais tradicionais da cidade. Formou-se em direito e matemática aplicada pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e antes de completar 25 anos já havia passado duas temporadas na China, em intercâmbio.

Cavaliere e Paes se conheceram no período em que o então ex-prefeito estava na iniciativa privada. Ele foi vice-presidente para América Latina da montadora chinesa BYD e consultor do BID (Banco Intramericano de Desenvolvimento). Em 2018, Paes concorreu ao governo estadual e atraiu Cavaliere para a campanha ?foi derrotado por Wilson Witzel, então no PSC.

Em 2019, em sociedade com Erick Coser, Cavaliere fundou a Gabriel, startup de videomonitoramento que instala câmeras viradas para a rua e envia imagens ao vivo às polícias. Ela foi criada com fundos de R$ 9 milhões da Norte, da Canary e da Globo Ventures, empresa de investimentos do Grupo Globo.

Cavaliere saiu da sociedade para a política em 2020. A Gabriel hoje atua no Rio, São Paulo e Belo Horizonte, e sofre críticas por questões de privacidade em relação às imagens coletadas e pelo formato de alerta direto à polícia. Em 2025, foi obrigada pela gestão Paes a retirar 400 câmeras viradas para vias públicas, por "interferência excessiva".

O novo prefeito foi secretário de Meio Ambiente e de Casa Civil no terceiro mandato de Paes, e eleito deputado estadual em 2022. Para o quarto mandato, foi escolhido como vice em chapa "puro-sangue", com a responsabilidade de assumir a prefeitura dois anos depois. Apesar de prometer o oposto, Paes e seu entorno davam como certa a agora real pré-candidatura a governador em 2026.

Cavaliere é considerado por pessoas do entorno da prefeitura como alguém de trato duro, disposto a dar broncas como Paes, mas sem a informalidade e demonstração pública de bom humor do seu mentor.

Em conversa com a Folha sob reserva, um político do núcleo da prefeitura comparou Cavaliere a um treinador de futebol estudioso, mas que não tem a linguagem boleira, referindo-se ao que seria uma certa dificuldade de diálogo com políticos.

A fonte afirma que o agora prefeito vai precisar conquistar o "vestiário", o que, na analogia, significa melhor comunicação com vereadores. Cavaliere assumiu desde o ano passado parte das atribuições do prefeito, incluindo reuniões com secretários, agendas públicas e a liderança de projetos, como a nova bilhetagem digital dos ônibus.

Além do primeiro nome em comum, Eduardo Cavaliere se assemelha ao seu mentor no modo de falar e gesticular, na opção por camisas de tons claros e na busca por demonstrações de afinidade com a cultura popular. No último Carnaval, desfilou com a Mangueira na Marquês de Sapucaí usando um chapéu semelhante ao do portelense Paes.

Nas opiniões públicas sobre política, demonstra alinhamento ao estilo liberal do agora ex-prefeito, gerando desconfiança dos aliados de esquerda. Uma entrevista dada ao jornal O Globo, em dezembro, gerou atrito com o PT ao dizer que o discurso sobre segurança pública do partido e do presidente Lula (PT) eram "lero-lero ultrapassado". Também criticou a ADPF 635, determinada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) para regular operações policiais.

As falas, pouco mais de um mês depois da operação policial mais letal da história do Brasil, com 122 mortos, geraram pedidos de explicação de petistas. Internamente, Cavaliere defendeu que precisava marcar posição sobre o tema da segurança, principal investimento da prefeitura na quarta gestão ?Paes criou uma força de segurança municipal, com agentes armados.

Exceto pela segurança, de atribuição primária do estado, o desenvolvimento urbano é o principal gargalo do Rio: bairros das zonas oeste e sudoeste, distantes do centro, onde está a maior parte dos postos de trabalho, estão cada vez mais adensados, e o deslocamento da população pressiona o transporte público.

O terceiro e quarto mandatos de Paes foram marcados por nova tentativa de reocupação do centro, com o programa Reviver, que concede benefícios tributários a quem adquire moradias. Os desafios à reocupação são o preço ?o valor de novos apartamentos no centro se assemelha à zona sul? e o perfil médio do comprador, que, em vez de morar, tem investido em aluguel temporário via plataformas.

A maior obra sob comando do novo prefeito deve ser a "Praça 11 Maravilha", que consiste na demolição do elevado 31 de março, no centro, e a alteração urbana nos bairros que formam o entorno do sambódromo do Rio. Paes quer dar marca política à obra como fez com o Porto Maravilha e a derrubada da Perimetral.

O projeto, estimado em R$ 1,7 bilhão pela prefeitura, prevê demolir o elevado para construir uma área aberta, integrada ao sambódromo, e prédios residenciais, além de um museu. Anunciado com pompa em novembro, o projeto teve a primeira audiência pública na Câmara do Rio apenas este mês.

Moradores e pesquisadores do Plano Diretor da cidade indicam preocupação com o adensamento e possível gentrificação da região, com aumento do preço dos imóveis e aluguéis.