SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Moradores e frequentadores da Casa Verde, na zona norte de São Paulo, protestam contra a desapropriação de campos de futebol de várzea em área do futuro parque Campo de Marte, após decisão da Justiça que autorizou demolições no local.

A medida determinada pela juíza Carmem Cristina Fernandes Teijero e Oliveira no último dia 10 de fevereiro já resultou na destruição do único campo da região gerido por uma mulher.

Por trás dos escombros está o trabalho de anos de uma família. Soraya Marks cuidou por muito tempo de um dos campos da área, o Aliança, onde também funcionava uma escolinha de futebol voltada a meninas.

O espaço se tornou um dos poucos a acolher o futebol feminino de várzea na cidade e integrava um conjunto de seis campos utilizados pela comunidade para jogos, encontros e atividades culturais.

A demolição do Aliança, em 12 de março, foi a primeira dentro da área atingida pela decisão judicial e acendeu o alerta entre frequentadores dos demais campos, que temem novas remoções.

Os campos do Campo de Marte existem desde os anos 1950 e são vistos por frequentadores como um "oásis" da várzea na zona norte. Às margens do rio Tietê, o espaço abriga os clubes Cruz da Esperança, Sade, Pitangueira, Paulista e Baruel.

A permanência das atividades foi sustentada por anos por uma disputa judicial entre a Prefeitura de São Paulo e a União, encerrada com a transferência de parte significativa do terreno ao governo federal.

Com o avanço do projeto do parque Campo de Marte, a prefeitura afirma que foi firmado um acordo entre a concessionária responsável pela área e a Associação dos Clubes Mantenedores para a gestão compartilhada dos futuros campos de várzea.

De acordo com a gestão Ricardo Nunes (MDB), clubes como o Cruz da Esperança e o Aliança participaram inicialmente das tratativas, mas deixaram o processo.

No dia a dia, a rotina do espaço sempre combinou futebol e cultura. Os campos são usados pela comunidade negra da região para partidas de várzea, rodas de samba e festas que ajudam a sustentar as atividades dos clubes.

Presidente do Cruz da Esperança, Antônio de Jesus Marcos afirma que o samba é parte central da sobrevivência do espaço e também um ponto de conflito com o projeto do parque.

"Eles disseram que não combinava samba com o parque. Não ia dar certo samba com o parque", relatou.

Sem uma base fixa de associados, o clube depende dessas atividades para se manter. "Meu time não tem associado, não tem gente que paga mensalidade. A gente precisa disso para continuar", disse.

Além dos jogos, há custos cotidianos que recaem sobre os próprios organizadores. "A gente, além de os rapazes jogarem, ainda tem que pagar uma cerveja, de vez em quando um almoço. É isso que mantém."

Ele afirma que o grupo chegou a integrar a associação responsável pelos campos, mas decidiu se desligar quando percebeu que as atividades culturais não seriam contempladas. "Quando a gente falou do nosso samba, da nossa cultura, eles não sabiam. Aí disseram que não combinava com o parque", disse.

Desde então, o clube atua de forma independente e busca apoio para manter as atividades no local.

A secretaria afirma que os parques municipais são espaços de acesso livre voltados à promoção de lazer, cultura e esporte e que manifestações artísticas são permitidas, desde que respeitem as normas de uso e preservação.

Diz que o Cruz não solicitou autorização para a realização das atividades de samba e aponta a comercialização irregular de bebidas alcoólicas no local, além do descumprimento de notificações para desocupação.

A administração municipal afirma que acionou o Judiciário para garantir a retomada da área pública e dar continuidade à implantação do parque.

O temor aumentou após a demolição do Aliança, dentro do perímetro do projeto. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram a ação de reintegração de posse movida pela Prefeitura de São Paulo, com autorização para uso de força policial.

No caso do Aliança, a prefeitura afirma que havia atividades comerciais irregulares e uma moradia no local. Após o despejo e a demolição, Soraya Marks, que vivia no local havia 20 anos, passou a receber auxílio-aluguel de R$ 400.

O Cruz da Esperança organiza um abaixo-assinado que já reúne cerca de 22 mil assinaturas em defesa da permanência no território.

A diretoria também tenta abrir diálogo com o poder público e busca contato com o secretário municipal de Cultura, Totó Parente. Na última semana, o presidente do clube se reuniu com a ministra da Cultura, Margareth Menezes, após já ter levado o caso ao presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge.

"Eu consegui falar com ela, passei o problema. Ela me deu uma atenção maravilhosa", afirmou.

Fundado em 1958 por um grupo de taxistas pretos, o Cruz da Esperança é apontado como um dos principais pontos de convivência da Casa Verde, associado ao samba de raiz, ao futebol de várzea e às práticas culturais da população negra da região.

A área é descrita como parte da chamada "Pequena África" paulistana, marcada pela presença histórica da população negra ao longo do século 20.

"Estamos lutando pelos nossos campos. Nossa comunidade."