SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu sempre fui otimista, mas estou ficando pessimista", afirmou nesta terça-feira (25) André Corrêa do Lago, presidente da COP30, cúpula das Nações Unidas sobre mudança climática realizada em Belém (PA) no ano passado.

"Infelizmente, existem setores que estão apostando no agravamento da mudança do clima como algo que pode favorecê-los ?o que é de um grau de imoralidade difícil de conceber", disse o embaixador em seminário sobre transição energética.

O debate foi promovido pelas ONGs Observatório do Clima, Climainfo e Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis.

"Os impactos da mudança do clima serão tão devastadores que podem acentuar as injustiças sociais", acrescentou Corrêa do Lago.

Ele ressaltou que a intensificação do aquecimento global pode resultar num cenário de ainda mais desigualdade, em que ricos ficam encastelados e protegidos das intempéries climáticas cada vez mais extremas, enquanto o resto da população estaria à mercê delas.

O diplomata está à frente da iniciativa de elaborar um plano ?chamado de mapa do caminho? para indicar como os países podem abrir mão de petróleo, gás e carvão. O documento deve ser finalizado antes da COP31, que acontece em novembro, na Turquia.

O tema deve ficar em evidência também no próximo mês, quando ocorrerá a primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis. O evento foi anunciado na COP30 e será realizado em Santa Marta, no litoral colombiano, de 24 a 29 de abril.

"A conferência chega em um momento de máxima crise, por tudo o que está acontecendo no Oriente Médio. Isso coloca o tema da eliminação dos combustíveis fósseis novamente na crista da onda da geopolítica global", avaliou Irene Vélez Torres, ministra de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia.

Ela explicou que a ambição da cúpula, que não tem o caráter vinculativo dos eventos sob a jurisdição da ONU, é mobilizar um bloco de países que estão decididos a iniciar a transição energética.

"Nunca antes houve um espaço dedicado em que países e setores [econômicos] possam falar abertamente da eliminação de combustíveis fósseis. Na verdade, há uma espécie de tabu ao falar dessa necessidade ?justamente porque há uma grande dependência econômica destas fontes. E também porque há um lobby petroleiro que esteve permanentemente incidindo nas COPs climáticas", afirmou.

A ministra ressaltou que ninguém diz que eliminar a dependência de fontes sujas de energia será fácil, mas que a dificuldade não é motivo para fugir desse tema. Disse ainda que o resultado dos debates de Santa Marta será um relatório, que deve ser incorporado ao mapa do caminho internacional que Côrrea do Lago está elaborando.

"Precisamos ter um planejamento e uma trajetória clara, com marcos indicativos que possam orientar políticas públicas, investimentos e decisões econômicas ao longo do tempo. Esse mapa é uma contribuição muito forte nessa linha", acrescentou André Andrade, economista do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima brasileiro.

Para ele, também não é possível fazer essa discussão sem tratar de financiamento e sem assegurar que a transição energética seja justa e segura. "É preciso que a transição proteja empregos e receitas. Sem isso, é muito difícil sustentá-la politicamente."

O mapa do caminho, segundo Corrêa do Lago, não se propõe a buscar um consenso imediato sobre o tema, mas sim mostrar que existe ciência, conhecimento e caminhos economicamente viáveis de abrir mão dos fósseis.

"Temos que mostrar para o mundo que a alternativa [ao agravamento da crise climática] é viável e incontornável, e não deixar que aqueles que estão apostando numa desgraça geral dividam aqueles que estão procurando soluções", afirmou o diplomata.

Porém, essa transição e, consequentemente, o corte drástico nas emissões de gases de efeito estufa precisam ser feitos muito rapidamente. "A ciência é muito clara: precisamos reduzir emissões drasticamente até 2030", disse o meteorologista Carlos Nobre, que também participou do evento e integra o painel científico que colabora na elaboração do mapa do caminho.

O pesquisador ressaltou que é preciso acabar com a dependência de combustíveis fósseis até 2040, ou no mais tardar até 2045. "Mesmo assim, vamos atingir 1,7°C ou 1,8°C de aquecimento [em comparação aos patamares pré-industriais]", lembrou.

A meta do Acordo de Paris é manter o aumento na temperatura global em, no máximo, 2°C em relação aos níveis anteriores à Revolução Industrial, com esforços para não ultrapassar a marca de 1,5°C ?que já se sabe que será superada, ao menos temporariamente.