SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O projeto de lei que pretende mudar o nome da rua Peixoto Gomide, na região da Consolação, em São Paulo, esbarrou em uma controvérsia histórica: a via foi realmente batizada em homenagem a um político que matou a própria filha 120 anos atrás? Ou ela ganhou esse nome por causa de um homônimo, que não teve a ver com o famoso crime?

Na semana passada, a Câmara Municipal aprovou, em primeira votação, a mudança do nome da rua para Sophia Gomide, em homenagem à jovem de 22 anos morta pelo próprio pai, Francisco de Assis Peixoto Gomide. O projeto foi apresentado pela Bancada Feminista do PSOL e pela vereadora Luna Zarattini (PT), que se basearam em uma pesquisa da historiadora Maíra Rosin, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

A pesquisadora identificou três ruas de São Paulo que homenageiam feminicidas. Estão na lista Moacir Piza (matou a ex-companheira, Nenê Romano) e Alberto Pires (matou a esposa, Leonor de Camargo Cabral). Também há projetos de lei para alterar esses nomes.

Peixoto Gomide, então senador paulista, atirou na cabeça de sua filha Sophia na casa da família, no centro de São Paulo, em 20 de janeiro de 1906. Em seguida, suicidou-se. O político não aceitava o namoro da jovem com o poeta e dramaturgo Manuel Batista Cepelos, um jovem pobre de Cotia. O casal se conheceu no largo São Francisco, onde estudavam direito.

As vereadoras argumentam que o nome Peixoto Gomide foi referendado em uma homenagem na Câmara Municipal em 1914, quando houve uma revisão dos logradouros. O político era bem conhecido, tendo ocupado cargo de presidente da Província de São Paulo de 1895 a 1897.

Um mapa de 1897 -portanto, oito anos antes do crime- já identificava um pequeno trecho entre as ruas Augusta e Frei Caneca como Peixoto Gomide.

Mas qual Peixoto Gomide?

No último fim de semana, o jornalista Douglas Nascimento, do site São Paulo Antiga, publicou um vídeo afirmando que Peixoto Gomide tinha o mesmo nome do pai, um juiz de direito com atuação no interior que morreu em 1850, quando o filho homônimo tinha apenas um ano.

"Minha pesquisa tinha como fonte o Dicionário de Logradouros, site da prefeitura que conta a história das ruas. Por mais de dez anos, o texto informava que a rua era uma homenagem ao senador assassino. Mas, na quinta-feira [19], depois da aprovação do PL, a prefeitura mudou misteriosamente o texto, colocando essa origem em dúvida", diz Rosin.

O novo texto da prefeitura informava que "servidores antigos" acreditaram na hipótese, mas que hoje "não há consenso definitivo" sobre quem foi homenageado. "Quando pai e filho possuem o mesmo nome, é comum que a homenagem inclua designações como ?Filho? ou ?Júnior?, o que não aconteceu neste caso", diz o site municipal.

A vereadora Silvia Ferraro (PSOL) refuta esse argumento. "Os documentos históricos mostram que o sufixo ?Júnior? nunca existiu. As certidões de batismo, casamento, de batismo de Sophia e a certidão de óbito dele comprovam o fato. No próprio túmulo, ao lado de Sophia, não há qualquer menção a ?Júnior", explica.

Já o historiador João Barcellos, que pesquisou a vida do poeta Manuel Batista Cepelos (namorado de Sophia), afirma acreditar que o nome era de fato uma homenagem ao Peixoto Gomide mais antigo, que morreu décadas antes do nascimento da neta. "Na época, não se colocava nome de pessoas vivas nas ruas. O mais importante dessa história é que agora a rua vai ter o nome de uma mulher paulista que foi morta por amar um homem pobre", diz.

Mas foi apenas em 1934 que São Paulo proibiu o batismo das vias públicas com nomes de pessoas vivas, explica Maíra Rosin. "No século 19, isso era bastante comum. Parte dessa área pertencia ao jornalista e agrônomo Joaquim Eugênio de Lima, responsável pela construção da avenida Paulista. Ele dava nome das ruas da região a amigos dele e pessoas que admirava, como Barata Ribeiro, Herculano de Freitas. Na época, Gomide era um político muito conhecido. Faz todo sentido o nome da rua ser em homenagem a ele, e não a seu pai, que tinha morrido décadas antes", diz.

Questionada, a gestão Ricardo Nunes (MDB) afirmou que a mudança para Sophia Gomide foi aprovada pelo Arquivo Histórico Municipal e que acompanha a tramitação do projeto.

Pouco antes de responder à reportagem nesta terça-feira (24), a prefeitura atualizou novamente o texto no site Dicionário de Logradouros.

Dessa vez, o site incluiu um currículo do assassino e uma informação que deixa a história ainda mais nebulosa -sem creditá-la, no entanto, a nenhuma fonte histórica. Segundo a prefeitura, o feminicídio pode ter ocorrido porque o senador não era pai apenas de Sophia, mas também de seu namorado, fruto de um relacionamento do político com uma mulher negra escravizada. O poeta morreu em 1915. Não há confirmação de que ele fosse filho do próprio sogro.

A gestão não respondeu à reportagem sobre a atualização do site. As vereadoras enviaram um ofício à prefeitura questionando as recentes mudanças na história oficial da rua.