SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As obras de requalificação da estrada M'Boi Mirim, no extremo sul da capital paulista, deixarão de ter corredores de ônibus, conforme previsto em projeto original, para incluir faixas exclusivas. As intervenções preveem também a instalação de baias nos pontos de parada, faixa azul para motociclistas, ampliação das calçadas e ciclovia.
Reivindicada há mais de 30 anos pela população, a duplicação da estrada do M'Boi Mirim foi anunciada em setembro de 2019 pelo governo estadual com projeto elaborado pelo DER (Departamento de Estradas e Rodagem).
Na ocasião, o então governador João Doria (na época no PSDB, hoje sem partido) e o prefeito Bruno Covas (PSDB), morto em 2021, gravaram um vídeo com o anúncio da parceria entre estado e município para a duplicação da estrada.
Orçada em R$ 446,7 milhões, a obra deixou de ser responsabilidade da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a execução foi transferida para a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), em março de 2024.
O projeto original do DER previa a implantação de 5,1 quilômetros de corredor de ônibus ?que ficam na faixa da esquerda? entre o terminal Jardim Ângela e a avenida dos Funcionários Públicos. Na versão atual, sob a gestão Nunes, o mesmo trecho prevê faixas exclusivas ?que ficam à direita da via, não separam o transporte público dos demais veículos e não reduzem o tempo de viagem dos passageiros, que chegam a demorar mais de uma hora para percorrer trecho de 5 km nos horários de pico. O mesmo percurso leva cerca de 15 minutos sem trânsito.
Atualmente, nesse trecho, a estrada opera com apenas uma faixa de rolamento por sentido, o que explica os longos tempos de deslocamento.
As obras também preveem a recuperação da pista e melhorias no trecho de 1,2 km entre a avenida dos Funcionários Públicos e a rua Humberto Marçal, na divisa com Itapecerica da Serra, na região metropolitana.
Em nota, a gestão Nunes afirmou que análises técnicas apontaram para a inviabilidade dos corredores centrais de ônibus devido ao adensamento urbano no entorno da via, o que resultaria em um número expressivo de desapropriações. "A estrada também possui traçado e engenharia com uma série de desníveis e estreitamentos, que dificultam o alargamento da pista já existente em alguns trechos", disse a nota.
Para o engenheiro e mestre em engenharia de transportes Sérgio Ejzenberg, a troca de corredor por faixas exclusivas prejudica a população que depende do transporte público. "Há uma diferença grande, embora ambas sejam medidas para privilegiar o ônibus em relação ao trânsito em geral", diz. "A faixa de ônibus à direita da via é prejudicada pelo tráfego que entra e sai pelas vias transversais, o que não acontece com o corredor. O tempo de viagem [com a faixa] não muda muito em relação ao atual."
Segundo o especialista, a implantação de faixas de ônibus não é a solução mais adequada para região com altíssima demanda de transporte público, como a estrada do M'Boi Mirim. "É fundamental implantar corredor enquanto o metrô não vem."
Com cerca de 16 quilômetros, a estrada funciona como o principal acesso ao centro da cidade para os cerca de 2 milhões de habitantes que vivem no distrito de Jardim Ângela e nos bairros Capão Redondo e Campo Limpo e dependem majoritariamente do transporte público.
A distância de mais de 25 quilômetros da região central, aliada à dependência de um único modal de transporte, o ônibus, faz com que os moradores encarem trajeto de mais de duas horas para ir e voltar do trabalho diariamente. "A situação é caótica", diz José Geraldo Araújo, líder do movimento SOS Transportes M'Boi Mirim, iniciativa criada em 2009 para cobrar melhorias na mobilidade da região.
Em relação ao baixo impacto no tempo de viagem com a instalação de faixas de ônibus, a gestão Nunes afirmou que a medida amplia a fluidez no fluxo das linhas municipais, e que a instalação de faixas exclusivas à direita da via permite a segregação por sinalização.
Licitada pelo DER em 2020, a duplicação da via foi barrada pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), em setembro daquele ano, por indícios de riscos à competitividade entre as empresas participantes devido à presença de cláusulas restritivas, como exigência indevidas de atestados de experiência e de capacitação.
O início das obras foi paralisado até dezembro do ano passado, quando foram feitas as primeiras intervenções no trecho menos complexo das obras, que se estende por 1,2 km entre a divisa com Itapecerica da Serra e a avenida dos Funcionários Públicos onde serão instaladas baias de embarque e desembarque nos pontos de ônibus.
Neste primeiro trecho, foi calculado custo de R$ 1,2 milhão em desapropriações, segundo a gestão municipal.
Em nota, o DER disse que a responsabilidade pela elaboração e possíveis alterações do projeto de duplicação da estrada do M'Boi Mirim é da Prefeitura de São Paulo, e que cabe ao órgão estadual apenas a fiscalização do convênio.