SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As redes sociais têm mostrado vídeos em que mulheres filmam, geralmente entre risos, a falta de habilidade de seus parceiros com as tarefas domésticas. Seja por terem guardado o desinfetante na geladeira, passarem o dia inteiro no videogame e se recusarem a tomar banho ou até mesmo por voltarem do mercado com os itens errados da lista.

Esse conteúdo, que muitas vezes gera engajamento e é entendido como humor, acendeu um debate mais profundo sobre o papel da mulher como cuidadora e supervisora do homem, o que pode causar sobrecarga física e emocional. A humorista e influenciadora Carol Delgado respondeu a essa tendência com um vídeo satirizando esse comportamento, com mais de 180 mil curtidas.

Os cerca de 3.400 comentários se dividem entre reações negativas, chamando a humorista de "amargurada" e "invejosa", enquanto outros são de pessoas que compartilham do desconforto em relação a esse tipo de conteúdo.

Para a humorista, em conversa com a Folha, esses vídeos acabam normalizando o comportamento para mulheres que passam por isso e se sentem sobrecarregadas, mas acabam não reclamando dentro de casa porque entendem como uma conduta engraçada.

Ela afirma que, apesar de o humor tornar qualquer pauta leve, há uma diferença entre abordar o problema de forma mais suave e banalizar o assunto. Para Carol, quando alguém se dispõe a fazer humor com algo, deve também aceitar que há o contraponto de pessoas que não vão gostar. "Ninguém está impedindo ninguém de criar esse tipo de conteúdo, mas também não tem como impedir que se crie um debate sobre isso", diz.

Colocar as mulheres no lugar de cuidadoras dos homens não é novidade. No entanto, Angelica Ferrara e Dylan Vergara, pesquisadores da Universidade de Stanford, cunharam um novo termo em 2024 para explicar o fenômeno: "mankeeping", que pode ser traduzido para manutenção masculina.

Eles analisaram relatórios de pesquisas de larga escala e representativas ?como dados do Gallup e do American Perspectives Survey? conduzidas nos últimos 30 anos e concluíram que a diminuição da participação em igrejas, clubes e outras organizações comunitárias afetou os homens. Diferentemente das mulheres, que cultivam redes diversificadas, os homens tendem a centralizar todo o seu suporte emocional em suas parceiras românticas, aponta o estudo.

A psicanalista Carol Tilkian, colunista da Folha de S.Paulo, aponta que as pessoas constantemente confundem cuidado com amor. "Fomos educadas e socializadas para isso. O primeiro brinquedo que você ganha quando criança é uma boneca. Você aprende que tem que cuidar dos seus irmãozinhos e da casa. São hábitos que são ensinados por gerações para as mulheres e que são reproduzidos", diz.

Enquanto as mulheres crescem com esse entendimento, do zelo emocional, os homens não foram educados sobre como manter relações sociais saudáveis, e nem a manter um apoio emocional fora da relação, explica Marta Carmo, psicóloga especialista em casal e família.

Um relacionamento íntimo, diz, apenas reproduz as desigualdades já existentes no plano social. Ela também reforça que, apesar de tendência nas redes sociais serem atribuídas a relações heteroafetivas, essa dinâmica pode aparecer em qualquer relação, independentemente do gênero ou orientação sexual.

"Mankeeping é um termo novo para falar de um comportamento antigo que mascara uma codependência", diz. "Por ser necessária, eu me sinto mais relevante nessa relação, mas eu também não me sinto vista, me sinto sobrecarregada e me ressinto por uma dinâmica que eu mesmo estou alimentando."

Carmo lembra que cuidar é parte essencial de qualquer relação e uma forma autêntica de se relacionar com o outro, desde que feito de forma mútua, em que ambas as partes se sintam beneficiadas.

Se toda a responsabilidade recai para uma das pessoas, a longo prazo, pode gerar cansaço emocional, sensação de sobrecarga, invisibilidade, ressentimento e até mesmo solidão, afirma a psicóloga.

"E muitas vezes, a iniciativa de identificar esse padrão e mudar essa sobrecarga recai justamente sobre quem já está desgastado. Por isso, mudanças mais profundas dependem também do engajamento e da consciência dos dois parceiros", diz.