SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O missionário Nick Moretti causou indignação nas redes sociais após a circulação de um vídeo em que associa as cidades de Salvador e Olinda a demônios.
Gravação do missionário ligado aos movimentos Dunamis e The Send viralizou e gerou reações. No vídeo, Moretti afirma odiar a capital baiana e relata mal-estar ao passar por regiões com referências a religiões de matriz africana.
Missionário amplia a fala para o território baiano. "Se tem uma cidade que eu odeio ir -e desculpa a todos os meus amigos baianos, eu amo vocês- mas Salvador, meu irmão, parece que você está andando pedindo licença pra demônio."
Moretti descreve um episódio ocorrido durante um jejum em Recife. Ele conta que, ao atravessar a ponte para Olinda, teve vontade de vomitar e atribui a sensação ao que chama de dom de discernimento espiritual.
"Eu, por exemplo, estando agora no The Send Recife, eu tenho o dom de discernimento às vezes bem aflorado. Principalmente quando entro em jejum, fico estranhaço, porque começo a discernir as coisas no espírito. Já viu aquelas pessoas que são tão crentes que ficam estranhas... Parece que estão falando em outro idioma, vivendo em outro mundo. Dá até um pouco de medo", disse o missionário Nick Moretti durante pregação.
Ele também menciona ter visto comércios e monumentos com referências a Oxalá e Ogum. Moretti relaciona esses elementos a um ambiente que ele descreve como espiritualmente negativo.
"O jejum The Send foi o que eu mais senti a presença de Deus. A gente estava no carro, indo para a primeira Revival Night. Eu estava no banco de trás quando veio um enjoo, uma vontade de vomitar. Depois de uns 30 ou 40 segundos, o pastor Matheus fala: 'A atmosfera de Olinda é pesada, né?'. Foi exatamente quando a gente entrou na ponte que meu estômago revirou. Ele explicou que aquela era a ponte que separa Recife de Olinda e começou a falar sobre a história do lugar, dizendo que quase todos os estabelecimentos são consagrados. Aí você começa a passar e era: Bar de Ogum, mercado Oxalá.. Eu falei nossa. Caramba. É um pouquinho. Estatua pra cá. Trabalho pra todo lado", disse o missionário Nick Moretti durante pregação
CRÍTICAS DE ESPECIALISTAS E RETRATAÇÃO
Pesquisadores apontam que a associação entre matriz africana e demônios é histórica no Brasil. Vilson Caetano, pós-doutor em antropologia, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e babalorixá, diz que a fala se insere nesse contexto e a classifica como "racismo camuflado em discurso religioso". A demonização de patrimônios culturais afeta símbolos dessas tradições, avalia Caetano.
Meio evangélico também criticou as declarações. O pastor Ronan Lima, mestre em teologia pela PUC-Rio e coordenador do Movimento Negro Evangélico, diz que "falta consciência racial" em parte do segmento. "O povo evangélico no Brasil é majoritariamente negro, mas ainda demoniza a religião do outro por causa de discursos como estes", afirma.
O pastor batista José Marcos classificou a fala como intolerante. Com 30 anos de atuação em Recife, ele afirma que "classificar como demoníaco o que outras tradições reconhecem como sagrado fere o respeito mútuo".
Nick Moretti publicou uma retratação em seu perfil no Instagram após a repercussão. Ele não respondeu à reportagem, mas escreveu que sua fala foi equivocada e que a intenção era citar a resistência espiritual do Carnaval de Olinda e Salvador.
O missionário completa dizendo que não odeia as cidades. Ele declara que os municípios são alvo do amor e da graça de Deus.