SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Justiça de São Paulo autorizou nesta quinta-feira (26) a reintegração de posse, com uso de força policial e demolição de estruturas, de uma área de quase 15 mil m² no Campo de Marte, ocupada pelo Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança. O clube afirma que já recorreu da decisão e pediu a reconsideração da liminar para suspender a desocupação.

A decisão é do juiz Bruno Santos Montenegro, da 9ª Vara da Fazenda Pública, que determinou a retirada imediata da associação para viabilizar a implantação do novo parque municipal na região da Casa Verde, na zona norte da capital. Na avaliação do magistrado, a ocupação de bem público é precária e não gera direito de posse, além de comprometer o cumprimento do contrato de concessão firmado pela prefeitura.

A ordem autoriza a demolição das construções existentes e o uso de força policial, se necessário, para garantir a desocupação. O mandado também prevê a retirada de eventuais ocupantes não identificados.

Nos autos, a gestão Ricardo Nunes (MDB) aponta que a entidade foi notificada diversas vezes para deixar o local, mas teria recusado comunicações formais e não aderido às tentativas de acordo. O clube chegou a participar de negociações para um modelo de gestão compartilhada dos campos de várzea previstos no parque, mas abandonou as tratativas.

O terreno integra o projeto do Parque Municipal Campo de Marte, criado por decreto em 2024 e considerado estratégico para ampliar a oferta de lazer e esporte em uma região densamente urbanizada. Pela modelagem da concessão, a área precisa ser entregue livre para o início das intervenções.

Comunidade protesta contra demolições de campos de várzea na zona norte de SP Na tentativa de reverter a decisão, a defesa do Cruz da Esperança argumenta que a medida foi concedida sem ouvir a associação e pode gerar efeitos irreversíveis, como a demolição de estruturas e a interrupção de atividades comunitárias mantidas há décadas. Também pede a manifestação do Ministério Público antes da execução da ordem.

O presidente do clube, Antonio de Jesus Marcos, diz que a entidade atua para barrar o despejo e contesta a classificação da ocupação como irregular. "Nós já fizemos o pedido de reconsideração e buscamos o Ministério Público, o Iphan e outros órgãos. Assim que recebemos a notificação, entramos com esse pedido para suspender o despejo", afirmou.

Ele sustenta que o clube tem presença histórica no local e afirma possuir documentação ligada à Aeronáutica. "Eles dizem que não temos documentos, mas temos, sim, registros da época. Estamos no local desde 1979, antes da atuação da prefeitura na área", disse.

A defesa também questiona a urgência da medida, ao apontar que não há comprovação de intervenção imediata no local e que o próprio modelo de concessão prevê etapas de transição para desocupação. Para os advogados, a execução da liminar com demolição e uso de força pode antecipar efeitos irreversíveis antes da análise completa do caso.

A reportagem questionou a Prefeitura de São Paulo, por e-mail, sobre a existência de documentação apresentada pelo clube que indicaria a cessão do espaço, datada de 12 de janeiro de 1979 e assinada por Ricardo de Oliveira Santos, então administrador da área. Até a publicação, não houve resposta.

A rotina do espaço sempre combinou futebol e cultura. Os campos são usados pela comunidade negra da região para partidas de várzea, rodas de samba e festas que ajudam a sustentar as atividades dos clubes.

O temor aumentou após a demolição do Aliança, dentro do perímetro do projeto. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram a ação de reintegração de posse movida pela Prefeitura de São Paulo, com autorização para uso de força policial.

No caso do Aliança, a prefeitura afirma que havia atividades comerciais irregulares e uma moradia no local. Após o despejo e a demolição, Soraya Marks, que vivia no local havia 20 anos, passou a receber auxílio-aluguel de R$ 400.

O Cruz da Esperança organiza um abaixo-assinado que já reúne cerca de 22 mil assinaturas em defesa da permanência no território.

Fundado em 1958 por um grupo de taxistas pretos, o Cruz da Esperança é apontado como um dos principais pontos de convivência da Casa Verde, associado ao samba de raiz, ao futebol de várzea e às práticas culturais da população negra da região.

A área é descrita como parte da chamada "Pequena África" paulistana, marcada pela presença histórica da população negra ao longo do século 20.