CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - A pesquisadora argentina Soledad Palameta Miller, 36, suspeita de furtar material biológico da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde trabalhava como professora doutora, teria tentado se desfazer das amostras virais e manipulá-las de forma irregular em diferentes locais da universidade.

Os indícios foram apontados no termo de audiência que concedeu liberdade provisória à docente da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA).

De acordo com o documento obtido pela Folha de S.Paulo, a equipe policial localizou grande quantidade de frascos descartados dentro de uma lixeira no Laboratório de Cultura de Células. Esses materiais foram identificados como pertencentes ao acervo que havia sumido do Laboratório de Virologia Animal do Instituto de Biologia em fevereiro deste ano.

O Laboratório de Virologia é uma unidade voltada à pesquisa de agentes infecciosos de relevância animal, onde há centros que operam com níveis 2 e 3 de biossegurança, em uma escala que vai até 4. Segundo o documento da Justiça, as amostras virais desaparecidas eram da área de nível 3 (NB3), destinada a agentes com alto risco de contágio para o indivíduo e risco moderado para a comunidade.

O advogado Pedro de Mattos Russo, que defende a pesquisadora, afirmou à Folha de S.Paulo que não houve furto e que a pesquisadora utilizava a estrutura do Instituto de Biologia por não dispor de laboratório próprio.

Ainda conforme o termo de audiência, no Laboratório de Doenças Tropicais, também do Instituto de Biologia, foi encontrado material próximo a um refrigerador que já havia passado pela autoclave e estava pronto para o "descarte definitivo". O texto menciona que parte do material subtraído foi encontrado em freezers e lixeiras "inclusive após manipulação".

O documento também destaca que a manipulação e o descarte foram feitos em ambientes não autorizados e sem os devidos protocolos de biossegurança, o que gerou a acusação de perigo para a vida ou saúde de terceiros. Devido a essas ações de movimentação e descarte das amostras, Soledad também passou a ser investigada pelo crime de fraude processual.

De acordo com o depoimento de um Policial Federal que acompanhou as buscas na Faculdade de Engenharia de Alimentos, a pesquisadorateria acessado os laboratórios do Instituto de Biologia num fim de semana. A direção da Unicamp informou que ela estava acompanhada de uma aluna de mestrado. Como a docente não possuía acesso próprio, a estudante abria os locais.

PRISÃO EM FLAGRANTE

Segundo o termo de audiência, a professora foi presa após ir ao Centro Médico de Barão Geraldo, distrito de Campinas, no interior de São Paulo. A princípio, os policiais federais foram até a casa da professora, onde foram informados de que ela e o marido haviam ido buscar atendimento médico pois a docente estava "nervosa com a situação de investigada".

No trajeto até o Centro Médico, a equipe policial viu o veículo da professora e realizou a abordagem e detenção na rua Bortolo Martins, na Chácara Santa Margarida. Soledad foi conduzida à unidade policial, onde foi presa em flagrante na segunda-feira (23).

A situação de flagrante foi reforçada pois, simultaneamente à abordagem, equipes da PF e técnicos da universidade localizaram parte das amostras subtraídas em laboratórios e lixeiras vinculados ao uso da investigação.

Ela chegou a ser levada para a Penitenciária Feminina de Mogi Guaçu, mas a Justiça Federal concedeu liberdade provisória à pesquisadora na terça (24).

ENTENDA OS NÍVEIS DE BIOSSEGURANÇA

O Laboratório de Virologia possui centros que operam com níveis 2 e 3 de biossegurança, em uma escala que vai até 4. Isso significa que os laboratórios são certificados para manipulação de materiais dessas classes de risco.

O Ministério da Saúde define a classe 2 como de risco moderado de contágio para o indivíduo e baixo para a comunidade. Essa classe inclui agentes que podem causar infecções em humanos ou animais, mas se espalham pouco e têm tratamentos e prevenções eficazes.

Já na classe 3, há alto risco de contágio para o indivíduo e risco moderado para a comunidade. Os vírus podem causar doenças graves ou letais, transmitidos especialmente pelo ar, e podem se espalhar na comunidade, embora existam medidas de prevenção e tratamento.

Em nota, a Sociedade Brasileira de Virologia afirmou que acompanha o caso e afirma que os mecanismos de biossegurança das instituições brasileiras permitiram identificar rapidamente a ocorrência, conter os materiais e adotar medidas pelas autoridades. A entidade diz confiar na apuração e reiterou compromisso com a pesquisa científica segura e responsável.

A Unicamp afirma que se mantém à disposição das autoridades competentes para auxiliá-las no esclarecimento das circunstâncias em que os fatos ocorreram.