SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Senado aprovou por unanimidade, na semana passada, o projeto de lei que inclui a misoginia como crime de preconceito na Lei do Racismo. A proposta agora aguarda decisão da Câmara dos Deputados, para onde foi encaminhada, e já provoca discussões entre parlamentares.

Para pesquisadoras de saúde pública e de gênero, o debate não deveria ser lido como uma guerra entre sexos. "O ponto não é demonizar homens, mas reconhecer que a desvalorização sistemática das mulheres produz dano real", afirma Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Pesquisas mostram que a misoginia afeta a saúde das mulheres em múltiplas dimensões, do sofrimento psíquico às doenças físicas, da dificuldade de prevenir e tratar condições de saúde até as formas mais graves de violência.

O QUE É MISOGINIA?

A misoginia se manifesta na discriminação e no ódio contra mulheres. N ão se restringe a episódios extremos, afirma Facchini. "Ela está no assédio, na humilhação, no descrédito da palavra das mulheres, na vigilância sobre o corpo, no medo de circular, na hostilidade nas redes, no trabalho, na escola e também nos serviços", diz.

Dados do Google Trends mostram que as buscas pelo termo misoginia atingiram o pico neste mês e registraram o maior volume de todo o período desde 2004, início da série histórica da plataforma. No último mês, o termo foi 5 vezes mais buscado do que machismo.

"Isso vai produzindo uma vida em estado de alerta. E viver assim cobra um preço: afeta a autoestima, a sensação de segurança, a confiança em si e pode se associar a ansiedade, depressão, isolamento e sofrimento psíquico persistente", afirma a pesquisadora. "No caso brasileiro, a literatura em saúde mental vem mostrando que gênero não é um tema lateral, mas uma dimensão central para compreender sofrimento, cuidado e desigualdade."

A misoginia não é um desconforto abstrato nem uma divergência entre sexos. Ela organiza desigualdades, produz medo, adoece e restringe a vida das mulheres

pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp

Estudos internacionais apontam na mesma direção. Pesquisa publicada em 2023 nos Anais da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos analisou 7.876 exames de ressonância magnética de adultos em 29 países e mostrou que mulheres que vivem em países com maior desigualdade de gênero apresentam córtex cerebral mais fino em regiões ligadas ao controle emocional e à resposta ao estresse.

As regiões afetadas no cérebro são as mesmas que apresentam alterações em quadros de depressão e transtorno de estresse pós-traumático. O estudo aponta ainda associação entre desigualdade de gênero e maior prevalência de depressão em meninas na adolescência.

O estresse crônico gerado pela discriminação produz sintomas físicos e emocionais que se acumulam ao longo do tempo, segundo Luanda Lima, pesquisadora e secretária executiva adjunta da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). Os impactos cardiovasculares são um exemplo concreto.

Estudo publicado em 2019 na revista científica SSM Population Health mostrou que mulheres negras que relataram discriminação racial e de gênero simultânea apresentaram os piores indicadores de saúde cardiovascular do grupo.

Doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em mulheres no Brasil, superando todos os tipos de câncer, segundo o Ministério da Saúde.

A prevenção para essas doenças, que inclui atividades físicas, também pode ser minada pela misoginia. Muitas mulheres evitam frequentar academias à noite ou abandonam a prática de atividade física na rua, como corrida, por medo de assédio, diz Facchini.

Além disso, quando chegam aos serviços de saúde, as mulheres encontram mais um obstáculo. O viés de gênero na medicina faz com que sintomas femininos sejam sistematicamente minimizados ou atribuídos a causas emocionais. Mulheres têm menor probabilidade que homens de receber protocolos básicos para infarto, como eletrocardiogramas seriados e cateterismo, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia.

A endometriose, que afeta cerca de 10% das mulheres no planeta segundo a OMS, leva em média sete anos para ser diagnosticada no Brasil. Pacientes relatam décadas ouvindo de médicos que a dor intensa era normal, resultado de um viés que atravessa a formação médica e a própria sociedade. A pesquisa biomédica ainda é orientada majoritariamente para o controle reprodutivo, e não para a saúde integral da mulher, aponta Lima.

Esse descaso com a dor feminina leva a casos graves na hora do parto. Mulheres negras, indígenas e com deficiência são as principais vítimas de violência obstétrica no Brasil, sofrendo desde demora na oferta de analgesia até procedimentos desnecessários, segundo Lima.

A violência contra a mulher é o ponto mais grave desse processo e também o mais divulgado. O Brasil vive um recorde de registros casos de feminicídio. Em 2025, homens assassinaram 1.568 mulheres por causa do gênero, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Oito em cada dez foram cometidos pelo ex ou atual parceiro.

Pesquisa publicada na revista The Lancet em 2024 mostrou que a violência por parceiro íntimo é o quarto maior fator de risco à morte prematura e invalidez de mulheres entre 15 e 49 anos no mundo.

O estudo revelou ainda que, em 2023, 145 mil mulheres morreram em decorrência dessa violência globalmente. A principal causa não foi o feminicídio, mas o suicídio, responsável pelo dobro das mortes. Além do trauma psicológico, essas violências deixam marcas físicas duradouras, aponta Lima.

"A misoginia não é um desconforto abstrato nem uma divergência entre sexos. Ela organiza desigualdades, produz medo, adoece e restringe a vida das mulheres", diz Facchini.