BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - A notícia de que materiais biológicos foram supostamente furtados de um laboratório de alto nível de biossegurança causa certo alarme, mas o caso na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) que levou à prisão de uma professora na última semana, é a falta de transparência que pode alarmar desnecessariamente a população.
Pesquisadores ouvidos pela Folha que conhecem o trabalho do laboratório e dos envolvidos no caso -e que pediram para não serem identificados- afirmam que, até onde se sabe, os micro-organismos que são manuseados no local são bem conhecidos da comunidade científica.
Em geral, o laboratório trabalha com vírus influenza, causador da gripe. Por exemplo, são conhecidos trabalhos no local com o H5N1, da gripe aviária, que pode ser transmitido de animais para pessoas, mas sem documentação de transmissão entre humanos. Outro vírus de aves mencionado à reportagem foi o da doença de Newcastle.
O local também trabalha com o H1N1, já mais conhecido da população.
Raquel Stucchi, professora da Unicamp e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), lembra ainda que o Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada, de onde as amostras foram supostamente furtadas, ganhou um considerável destaque durante a pandemia de Covid-19.
Não se sabe, porém, quais amostras teriam saído do laboratório e em que condições elas estavam (o material retirado poderia estar inativado, ou seja, não ser contagioso). Tal informação já poderia ter sido divulgada, dado que os laboratórios NB3 (local de biossegurança nível 3) possuem vigilância e registros detalhados de tudo o que existe, é usado etransportado no local.
A falta de transparência sobre esses pontos é criticada por pessoas ouvidas pela Folha que não quiseram se identificar. A reportagem entrou em contato com a Unicamp e com a PF (Polícia Federal), questionando a motivação para não tornar públicas tais informações básicas sobre o caso. A PF se limitou a dizer que não se manifesta sobre investigações em andamento. Já a universidade encaminhou notas genéricas já divulgadas; em uma delas, afirma que "detalhes do caso serão preservados para não comprometer o andamento das investigações".
Com a falta de informações sobre os materiais, resta pensar nos possíveis riscos envolvidos. No caso do H1N1, por exemplo, um pesquisador que não quis ser identificado afirma que é mais fácil pegar o vírus andando na rua do que de algum tubo que foi transportado entre laboratórios.
Outro fator a se levar em conta é que nem todo material trabalhado dentro de um laboratório NB3 é contagioso o tempo inteiro --ou, ainda, contagioso para humanos.
Há pesquisas que estudam a detecção de agentes infecciosos em que vírus são inativados. A inativação do potencial infeccioso também ocorre para fazer sequenciamento genômico dos micro-organismos, análises do genoma e de proteínas purificadas do vírus, aponta Fernando Spilki, membro da diretoria da SBV (Sociedade Brasileira de Virologia). Em casos como esse, o restante do trabalho poderia ser feito em laboratórios de nível menor de biossegurança.
Portanto, não necessariamente representa risco para pessoas o que teria sido transportado do laboratório de virologia da Unicamp.
Além disso, relatos na imprensa apontam que Soledad Palameta Miller, a pesquisadora suspeita de ter supostamente furtado o material biológico, estaria usando outros laboratórios na Unicamp com ajuda de colegas para supostamente acessá-los.
O compartilhamento desses espaços, porém, é bastante comum no universo de pesquisa brasileiro -constantememente afetado por subfinanciamento e falta de material-, especialmente para uma pesquisadora que ainda estava estruturando o seu laboratório, como era o caso de Soledad, professora doutora da FEA (Faculdade de Engenharia de Alimentos) desde 2025.
O advogado Pedro de Mattos Russo, que defende a pesquisadora, afirma que não houve furto e e que a pesquisadora utilizava a estrutura do Instituto de Biologia por não dispor de laboratório próprio.
Um dos pesquisadores ouvidos aponta que poderia, de fato, ter ocorrido de a pesquisadora retirar do laboratório de virologia materiais com os quais ela já trabalhava antes e que poderia considerar como seus e parte de sua pesquisa.
A reportagem ouviu também que não se pode descartar a possibilidade de a relação entre Soledad e pesquisadores do laboratório que fizeram a denúncia ter azedado ao ponto de chegar à situação policial atual, na qual foram atropelados os processos usuais ligados a amostras biológicas em laboratório.
Pesquisadores destacaram ainda que, apesar da suposta retirada não autorizada de materiais do laboratório de virologia, os envolvidos no caso não eram amadores, mas sim pesquisadores que conhecem as regras e cuidados quanto ao tema, afinal, não é qualquer pessoa que entra em um NB3 e sabe o que fazer no local.
"O que precismaos colocar é: o risco efetivo tem que ser avaliado a partir das evidências. E ele pode não ser tão alto assim", resume Spilki, reforçando que sua fala não busca culpar ou eximir de responsabilidade qualquer um que faça parte do caso.
Pesquisadores temem que o barulho envolvido no caso coloque dúvidas sobre capacidade da comunidade científica envolvida com esse tipo de trabalho, que exige amplos cuidados e preparos.
Cuidados em um laboratório nível 3
Os laboratórios conhecidos como NB-3 são usados para pesquisas com micro-organismos altamente patogênicos -ou seja, com grande potencial de provocar doença- e transmitidos por aerossóis. Por isso mesmo, há uma série de cuidados envolvidos no cotidiano do funcionamento desses locais.
Um dos pontos principais de um laboratório desse nível é a vedação e contenção do ar. Basicamente, o ar que está dentro do local lá permanece e só vai para o exterior após passagem por sistemas de filtração especiais.
"Lá dentro se utilizam máscaras com capacidade de filtração grande. Dependendo do agente com o qual se está trabalhando, se utilizam respiradores", afirma Spilki.
Spilki também aponta que, ao entrar e sair desses laboratórios, costuma-se trocar de roupa e/ou tomar banho. Tudo pensado para que não haja contato do ambiente externo com o que se trabalha no laboratório.
Além disso, todo material usado nos NB-3 são, posteriormente, tratados, autoclavados -aplicação de vapor em alta pressão a uma determinada temperatura- ou até destruídos, buscando manter o ambiente seguro -cuidados também tomados em laboratórios de nível 2.
Para transporte de materiais desses laboratórios para outros lugares, há também regras rígidas para garantir a segurança, aponta Raquel Stucchi, professora da Unicamp.
Ao sair do laboratório, por exemplo, os recipientes são adequadamente limpos, colocados em caixas adequadas e passados para o ambiente exterior através de uma janela, que não permite contato do laboratório com as áreas externas.
Além de todos esses cuidados, há ainda o treinamento das pessoas que têm acesso a esse tipo de laboratório. "Para você entrar e conseguir trabalhar no NB-3, não é no primeiro dia. Já são pessoas pré-selecionadas, pessoas com boa experiencia de laboratório, para minimizar riscos", afirma Spilki.
O membro da SBV reforça que os cuidados e a atenção que há em laboratórios do tipo, com controles rígidos do que acontece.
"Nós virologistas estamos expostos todos os dias a esses micro-organismos, então a gente tem esses cuidados", afirma Spilki. "Se as pessoas se preocupam com esse tipo de coisa, imagine a gente."