BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - "Robert Trivers poderia ter sido um dos grandes heróis românticos da ciência do século 20 se tivesse morrido nos anos 70, como algumas pessoas supunham que aconteceria", diz um perfil do biólogo, de 2005, no jornal britânico The Guardian. Trivers, um dos maiores nomes da ecologia comportamental, que foi apresentado à biologia praticamente por acidente, morreu no dia 12 deste mês, aos 83 anos.

Ele faleceu na casa de sua filha Natasha Trivers em Mount Vernon, Nova York, segundo o jornal americano The New York Times. A família não revelou a causa da morte.

No seu início de vida, Trivers esteve distante da biologia. Entrou na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, para estudar matemática, interessou-se por direito -mas foi recusado nas faculdades que tentou- e acabou se graduando em história, "uma área pela qual eu tinha pouco respeito e nenhuma intenção de seguir".

O contato com a biologia veio após a graduação, em um emprego que conseguiu na Education Services Incorporated, que tinha a ideia de fazer novos cursos para crianças, ensinando sobre caçadores-coletores, comportamento de babuínos e lógica evolutiva. Ali o direcionaram para trabalhar com temáticas animais e o colocaram para trabalhar com o biólogo William Drury.

"Foi talvez o maior golpe de sorte da minha vida. Antes de Drury, eu não sabia nada de biologia. [...] Ele me apresentou ao comportamento animal e me ensinou muitos fatos sobre a vida social e psicológica de outras criaturas", escreveu Trivers, em 2015, na revista Skeptic. "É em eventos tão pequenos e casuais que toda a nossa vida pode mudar."

Trivers teve um papel de grande destaque na biologia evolutiva. Dele partem algumas das grandes contribuições para o campo no último século, como a do altruísmo recíproco, do desmame e do autoengano.

"A grande contribuição do Trivers foi abrir uma discussão muito séria e bem fundamentada, inclusive do ponto de vista matemático, sobre a evolução do altruísmo", afirma Nelio Bizzo, professor sênior do departamento de genética e biologia evolutiva da USP.

Aqui, de forma bem geral, podemos dizer que sua teoria apontava que o altruísmo em espécies --o que poderia ir contra a lógica evolutiva, dado que, em muitos casos, estamos falando de seres se colocando em risco de morte para ajudar outros, até mesmo desconhecidos-- poderia ser explicado por um possível interesse próprio de que, no futuro, a ação seria retribuída.

As ideias de Trivers recaem sobre como o comportamento social pode ser teorizado dentro do contexto da teoria evolutiva, segundo Bizzo.

Sua visão de mundo era a partir da seleção natural atuando sobre estratégias comportamentais baseadas parcialmente na genética, segundo Marco Varella, biólogo e professor-visitante departamento de psicologia experimental do Instituto de Psicologia da USP.

Trivers olhava para graus de parentesco, conflitos de interesse, custo-benefício e reciprocidade para analisar as dinâmicas evolutivas que regem os relacionamentos no mundo, seja entre amigos, parentes, machos e fêmeas, e até mesmo entre o indivíduo e sua mente, diz Varella.

Estudos publicados por Trivers na década de 1970 serviram de base para campos de pesquisa inteiros atuais.

O biólogo também se relacionou com outros grandes nomes da ciência, como Richard Dawkins. A primeira edição do já lendário "O Gene Egoísta" tinha o prefácio assinado por Trivers. A posterior republicação teve outro autor no prefácio, o que causou uma rusga entre os dois pesquisadores.

Trivers talvez não fosse, porém, exatamente o que o imaginário popular pinta como um pesquisador tradicional -daí a primeira frase deste obituário. No perfil feito pelo The Guardian, ele é descrito como um pesquisador, na casa dos 60 anos, com jaqueta de couro preta e que fala, com uma frequência grande para um professor da Ivy League, a palavra "fuck".

De fato, ele era adepto aos palavrões e a brigas. Chegou, por exemplo, a ser preso na Jamaica, onde morou por algum tempo, após uma briga. "Eu acho que os organismos precisam de certo feedback físico às vezes", afirmou.

Em 1979, Trivers se filiou aos Panteras Negras, movimento político surgido nos EUA.

O pesquisador lecionou na Universidade Harvard, na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, e na Universidade Rutgers, em Nova Jersey.

Nos últimos anos, veio a público o envolvimento de Trivers com o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein.

Não apenas o biólogo teve pesquisa financiada, assim como outros cientistas, por Epstein -teria recebido cerca de US$ 40 mil-, como o defendeu publicamente, em entrevista à Reuters, em 2015, quando o bilionário americano já havia sido condenado por crimes sexuais contra meninas.

"Quando chegam aos 14 ou 15 anos, elas são como mulheres adultas eram há 60 anos, então não vejo esses atos como tão hediondos", disse Trivers à Reuters, em 2015.

No texto que escreveu também em 2015 para a revista Skeptic, Trivers, já com mais de 70 anos e com a vida dedicada ao comportamento das espécies, mostrava-se arrependido pela falta de reflexão sobre sua própria vida.

"'Seu mestre do autoengano', minha primeira esposa zombava. 'Você fala muito sobre conflito entre pais e filhos, mas negligencia seu próprio filho.' Culpado. Ambição demais e reflexão de menos sobre minha família: esposa, filhos e eu mesmo", escreveu Trivers.

"Qual é o caminho a seguir? Há um obstáculo e há uma esperança. O obstáculo é o autoengano, que é uma força poderosa com imenso poder de repetição. A esperança é que, após se tornar mais profundamente consciente dos próprios autoenganos e dos possíveis meios de amenizá-los, seja possível fazer algum progresso real contra essa forte força negativa", escreveu Trivers.