SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um ciclista iniciante leva cerca de sete minutos para percorrer 2 km em um trajeto plano e reto. Já um caminho de 8 km, com escadas e travessias por pontes, pode levar quase meia hora.

Há 12 anos, esse acréscimo de aproximadamente 20 minutos faz parte da rotina de quem mora na zona sul de São Paulo e utiliza a ciclovia do rio Pinheiros para se locomover, treinar ou trabalhar -a via é rota frequente para entregadores de aplicativo. Para seguir viagem, o ciclista precisa sair do percurso, atravessar o rio pela ponte João Dias, pedalar pela margem oposta e só então retornar à ciclovia na altura da ponte Cidade Jardim.

O desvio foi implantado após a ciclovia ser interditada pelo Metrô de São Paulo em novembro de 2013, para dar espaço às obras da linha 17-ouro do monotrilho, anunciada à época como parte do pacote de mobilidade para a Copa do Mundo de 2014. A interdição, prevista para durar 24 meses, se estendeu por mais de uma década e só agora, três mundiais depois, a linha vai começar a operar e a ciclovia completa será devolvida aos ciclistas.

A reabertura está prevista para acontecer até a próxima terça (31). Na mesma data deve entrar em funcionamento o monotrilho e a nova estação Morumbi, que dará mais um acesso à ciclovia e contará com bicicletário com 120 vagas.

O trajeto reaberto vai da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira até a região da estação Granja Julieta, da linha 9-esmeralda.

MENOS TEMPO, MAIS SEGURANÇA

São tantos anos de interdição que muitos usuários nem chegaram a conhecer o trajeto original. É o caso de Clayton Teixeira, 49, que, desde 2018, vai todos os dias da região da represa de Guarapiranga (na zona sul) até o Jaguaré (na zona oeste), onde trabalha no setor de blindagem automotiva.

O percurso tem cerca de 26 km, que ele conclui em uma hora. "As pontes são a pior parte, porque você tem que carregar a bicicleta nas costas para fazer a passagem. Um pai, por exemplo, se quiser pedalar com o filho pequeno, vai ter dificuldade de se deslocar", conta.

Outro problema é a falta de segurança na outra margem, na região do parque Bruno Covas. "Convivemos com assaltos diários e com medo o tempo todo. Tenho vários amigos e conhecidos que já foram vítimas ou sofreram tentativas."

Antônio Oliveira, 53, também utiliza a via diariamente há mais de dez anos para ir de Piraporinha, no M'Boi Mirim (na região metropolitana da capital paulista), até a Vila Leopoldina, na zona oeste. "Há alguns anos, fui assaltado e levaram minha bicicleta. Na época, não tinha policiamento. Agora tem, mas aos finais de semana."

Oliveira trabalha como cozinheiro e passa pelo desvio por volta das 7h30 e das 16h30. "A qualquer momento do dia você pode ser assaltado na outra margem. É melhor sempre passar com mais gente."

Ele leva, hoje, cerca de 1 hora e 20 minutos para completar o trajeto. "Acredito que levarei uma hora a partir da reabertura", diz.

Os dois relatam que já foram obrigados a mudar de percurso devido ao desvio. "Existe uma dúvida sobre os acessos, que às vezes estão fechados. Além disso, já tive que usar outro trajeto por conta do horário e maior risco de assalto", conta Teixeira.

A Secretaria de Segurança Pública estadual afirmou que a ciclovia da marginal Pinheiros conta com policiamento realizado por equipes da Rocam e por policiais em bicicletas, que atuam na prevenção de crimes. Segundo a instituição, nas imediações o patrulhamento ostensivo é feito com viaturas em pontos estratégicos de acesso à ciclovia.

Questionado sobre o atraso e os impactos para ciclistas, o Metrô afirmou que a área foi interditada para garantir a segurança de usuários e trabalhadores durante as obras do monotrilho. A companhia disse que o trecho será entregue em plenas condições, com plantio compensatório no entorno, terraplanagem, ajustes de piso e paisagismo.

Segundo a vereadora Renata Falzoni (PSB), a responsabilidade pela reabertura do trecho sempre foi do Metrô. "A ciclovia estava plenamente ciclável antes da obra do monotrilho. Por muito tempo, não houve manifestações sobre se e quando o Metrô faria a recomposição."

Ela disse ter cobrado um posicionamento da estatal sobre o assunto logo que assumiu como vereadora, no início de 2025. "Buscamos alternativas e, após diálogo com a diretoria de Engenharia e Planejamento, eles se comprometeram e estabeleceram os prazos para as obras."

A vereadora considera que a reabertura corrige uma interrupção que nunca deveria ter ocorrido e expõe um problema recorrente na mobilidade paulistana: qualquer obstáculo na cidade, por menor que seja, leva à interrupção do fluxo de bicicletas. "Isso acontece para, entre muitas aspas, manter a segurança dos próprios ciclistas. Proíbe-se para não assumir a responsabilidade."

Para Michel Farah, CEO da administradora responsável pela ciclovia, a reabertura e o novo acesso pela estação Morumbi transformam a via em um eixo de mobilidade mais estratégico. "O usuário poderá chegar facilmente a linhas de trem e metrô."

Além disso, ele destaca que entregar de volta aos ciclistas o percurso completo da via, que vai do Jaguaré até a avenida Miguel Yunes, em Interlagos, e possui 22,2 km de extensão, era o óbvio. "Era assim que a ciclovia havia sido planejada."