SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um ano depois do anúncio dos primeiros estudos, a Prefeitura de São Paulo avalia a implantação de duas linhas de teleférico. Os trajetos estão em relatórios técnicos aos quais a Folha teve acesso, elaborados pela SPTrans e SP Urbanismo (empresa municipal responsável por projetos urbanísticos da cidade).

No estudo, a empresa de transporte recomenda a criação de uma linha entre o terminal Jabaquara e o bairro Jardim São Savério, na zona sul. A proposta abrange cinco estações, distribuídas em locais com demanda de moradores e visitantes, como o São Paulo Expo, o Centro Paralímpico, o zoológico, o Jardim Botânico e a avenida Cursino, além de uma conexão com a linha 1-azul, de metrô.

O relatório também avalia como viável a criação de uma linha na Brasilândia, na zona norte, em moldes semelhantes à proposta inicial anunciada pela gestão Ricardo Nunes (MDB) em março de 2025. A área técnica ressalta, contudo, que há um "razoável desafio" à instalação naquela vizinhança, principalmente pela presença de fios de alta tensão.

No caso da linha na zona norte, há duas propostas distintas, ambas com paradas no CEU Paz e no entorno da futura estação Brasilândia da linha 6-laranja -- com inauguração prevista para outubro. O trajeto preliminar sugerido pela SP Urbanismo tem mais do que o quádruplo da extensão do indicado pela SPTrans, dividido em fases e se expandindo a bairros vizinhos, como Vila Nova Cachoeirinha.

Em nota, a gestão Nunes respondeu que as propostas passam por análise interna, em fase preliminar, sem definição conclusiva até o momento. Apontou, ainda, que as avaliações consideram diferentes cenários e possibilidades, como a mudança na demanda de passageiros na Brasilândia com a inauguração da linha 6-laranja, e o aumento da densidade populacional no Jardim São Savério e Jabaquara.

Um estudo chegou a ser encomendado à Fipe neste mês, mas a contratação foi cancelada pela prefeitura no dia seguinte, para novas avaliações internas. O contrato incluía apenas o teleférico da Brasilândia, além do VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos) que a gestão Nunes quer inaugurar no centro.

O custo estimado para a implantação do modelo de teleférico escolhido pela prefeitura é de cerca de R$ 200 milhões por quilômetro, segundo a SP Urbanismo. A intenção é instalá-lo e operá-lo em parceria com a iniciativa privada.

O transporte aéreo por cabos voltou a ganhar espaço nas discussões de mobilidade urbana pouco mais de uma década após uma primeira onda. A inauguração em Paris também trouxe nova projeção em dezembro --assim como Medellín, La Paz e outras grandes cidades latino-americanas continuam como referência internacional, com sistemas que reúnem diferentes linhas.

Problemas na experiência carioca trouxeram, entretanto, questionamentos ao modelo. O serviço chegou a ser interrompido por cerca de uma década na Providência e, neste ano, deve voltar no Complexo do Alemão. Salvador também tem avançado com um projeto, incluído no plano estratégico da atual gestão.

As propostas da gestão Nunes não são unânimes. O estudo preliminar veiculado pelo prefeito em 2025 recebeu críticas pelo custo e por envolver uma região que demanda investimentos públicos em áreas diversas.

Já técnicos da prefeitura têm defendido que o teleférico seria a única alternativa de transporte coletivo para alguns locais de difícil acesso, diante da impossibilidade de ônibus e funiculares.

Em 2012, a SPTrans já havia analisado alternativas para São Paulo. Foram cogitadas também as seguintes linhas:

- Pirituba ? Jaraguá

- Água Branca ? Imirim

- Jova Rural ? Tucuruvi

- Rodoviária do Tietê ? Campo de Marte/Anhembi ? Água Branca

- Jardim Jangadeiro ? Terminal Jardim Ângela ? Jardim Nakamura

- Terminal Guarapiranga ? Autódromo de Interlagos ? Pedreira

- Shopping Cidade Jardim ? Estação Berrini

- Pedreira ? Cocaia

Apenas as alternativas do Jabaquara e da Brasilândia foram consideradas, contudo, como de "interesse ao atual contexto". O estudo conclui ainda que a ligação da zona sul teria "maior demanda e interesse" do que a da região norte.

O modelo escolhido é monocabo "desengatável", o qual permitiria a desaceleração necessária para o embarque nas estações intermediárias e teria custo menor. Tem capacidade para transportar até 3,1 mil pessoas por hora, cabines de 10 a 15 passageiros e velocidade de cerca de 20 quilômetros por hora.

Desenho preliminar de teleférico em estudo para a Brasilândia apresentado pela SP Urbanismo em 2025 SP Urbanismo Pessoas atravessam faixa de pedestres em rua com postes e calçadas. Acima, cabos sustentam cabines de teleférico. Ao fundo, há rochas com árvores e edifícios modernos sob céu claro. Imagem pequena ****

Teleférico do Jabaquara

A proposta abrange 3,3 quilômetros e cinco estações, com trajeto de cerca de 10 minutos. A estimativa é de uma demanda máxima de 2.530 passageiros por hora. O custo previsto é de R$ 650 milhões para a implantação e outros R$ 44,2 milhões anuais de manutenção e operação.

"Demonstra alta eficiência ao conectar diretamente uma região periférica de difícil acesso [Jardim São Savério] à linha 1-azul do Metrô e ao Corredor ABD [que interliga as zonas leste e sul paulistanas com municípios da Grande São Paulo]", diz o estudo da SPTrans. Estima-se que reduziria o tempo de viagem em cerca de 70%, ante os 34 minutos atuais.

Há, contudo, possíveis impactos do teleférico. Os principais envolvem a instalação de torres e cabos no interior do Parque Estadual Fontes do Ipiranga (o Parque do Estado) e a presença de construções mais verticalizadas no entorno da estação Jabaquara.

O relatório descreve o potencial de cada parada:

- Terminal Jabaquara: integração com outros modos de transporte e acesso ao São Paulo Expo, que teve cerca de 3 milhões de visitantes em 2024;

- Centro Paralímpico: espaço de treinamento de cerca de 5 mil atletas;

- Zoológico: perto de espaços procurados por escolas e visitantes em geral, o que inclui também Jardim Botânico, CienTec e Parque do Estado;

- Avenida Cursino: importante eixo viário de conexão entre São Paulo e Diadema;

- Jardim São Savério: região de difícil locomoção e expressivo aumento populacional recente.

Teleférico da Brasilândia

A SPTrans aponta a necessidade de verificação e articulação do projeto com operadoras de linhas de alta tensão, o "que deve ser avaliado de maneira cuidadosa, consultando os 'stakeholders' relevantes", destaca.

A proposta da SP Urbanismo abrange 11,9 quilômetros e 13 estações, com previsão de 3.480 embarques por hora. O trajeto completo teria 32 minutos, custo estimado de R$ 2,3 bilhões e gastos de operação e manutenção anual de R$ 159,4 milhões.

A implantação seria em fases, com a primeira voltada às estações na Brasilândia, no Morro Grande e no CEU Jardim Paulistano (o que totaliza 1,7 quilômetro e 20 meses de obra). Também contempla novos equipamentos e intervenções no entorno, como centro cultural, horta e posto de saúde.

Já a opção da SPTrans é de quatro estações, com 2,6 quilômetros, 2.010 embarques estimados por hora e custo de R$ 516 milhões para implantação (além de R$ 34,9 milhões anuais de manutenção e operação).

Com ressalvas à extensão da linha indicada pela empresa de urbanismo, a SPTrans apresentou uma "ligação direta" entre o CEU Paz e a futura estação Brasilândia, com duas paradas adicionais intermediárias. Há a observação de que grande parte das experiências com teleféricos monocabo tem cerca de 3 quilômetros de extensão.