SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Cocaína, maconha e anfetamina podem levar mais rápido o usuário a um episódio de AVC (acidente vascular cerebral), ainda que você seja jovem.
É o que conclui uma revisão de 32 pesquisas realizada por cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, para entender a associação dessas drogas a casos de AVC. Os dados foram extraídos de mais de 100 milhões de pessoas, e os resultados foram publicados no International Journal of Stroke.
O risco maior está no consumo de anfetaminas. Elas apresentam um aumento de 122% de chance para todos os tipos de AVC ?hemorrágico, a forma mais agressiva, ou isquêmico.
Em seguida aparece a cocaína, que praticamente dobra o risco (96%). No caso da maconha, o risco é 37% maior.
Os pesquisadores observaram ainda que os percentuais seguem elevados também em indivíduos com menos de 55 anos. Essa afirmação ganha corpo em um contexto de alta global de AVC entre jovens adultos. Estimativas apontam que indivíduos nessa faixa etária já respondam por aproximadamente 15% das ocorrências no mundo.
O número de pessoas que tiveram um AVC aumentou 70% entre 1990 e 2021, aponta estudo publicado na revista científica The Lancet Neurology. Uma projeção da Global Stroke Action Coalition diz que 9,7 milhões podem morrer até 2050 devido a um episódio de AVC.
"O AVC já é uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo, e sua carga está aumentando. Ao mesmo tempo, o uso de drogas em nível global cresceu substancialmente nas últimas décadas. Apesar disso, as evidências que relacionam o uso recreativo de drogas ao risco de AVC ainda eram fragmentadas. Consideramos importante reunir essas evidências" disse à Folha uma das pesquisadoras envolvidas na revisão, Megan Ritson, do departamento de neurociência clínica de Cambridge.
"[O artigo] mostra basicamente o que nós, neurologistas vasculares, já sabíamos, com base nas observações empíricas do cotidiano", afirma o médico e pesquisador Danilo dos Santos, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
As ocorrências associadas ao uso de drogas se dão, geralmente, por alterações severas na circulação sanguínea e na estrutura dos vasos cerebrais.
Substâncias como a cocaína e as anfetaminas, por exemplo, provocam mudanças súbitas na pressão arterial. A primeira pode, inclusive, causar vasoespasmo cerebral ?contração involuntária das artérias.
O uso de maconha é associado à estimulação do sistema nervoso simpático e à diminuição da atividade parassimpática, o que também resulta em flutuações na pressão arterial e comprometimento da função vasomotora cerebral. A cannabis também pode aumentar a agregação plaquetária, facilitando a criação de coágulos e levando ao AVC isquêmico.
O uso crônico de drogas também pode acelerar aterosclerose (acúmulo de placas nas artérias) e aumentar o risco de dissecção arterial cervical, uma espécie de rasgo na parede da artéria. No caso das anfetaminas, há relatos de vasculite necrosante, inflamação severa dos vasos sanguíneos.
As explicações passam também pelas complicações cardíacas, uma vez que o uso de drogas pode afetar o coração, causando arritmias e cardiomiopatia, que podem levar a AVCs cardioembólicos ?quando um coágulo sai do coração para o cérebro.
Do ponto de vista de saúde pública, "o uso de drogas é um fator de risco evitável para o AVC", afirma Ritson. "Logo, esforços para reduzir o uso dessas substâncias provavelmente teriam um benefício direto na prevenção da doença."